A brutal lição sobre o nuclear na série Chernobil da HBO

Onde é que cada um de nós estava no dia 26 de Abril de 1986? Dificilmente alguém se recorda desse dia. E podia ser ter sido um novo dia D - de desastre colossal. Não que Chernobil não tenha sido uma catástrofe planetária, mas o que esteve para suceder após a explosão do reator 4 da central nuclear teria sido ainda mais dramático do que nos foi dito.

Para quem tem dúvidas sobre qual o poder e consequências da energia nuclear, os cinco episódios da série produzida em Inglaterra pela HBO e Sky vão tão longe quanto o jornalismo e a ficção podem ir em conjunto, fazendo desta série um enorme sucesso mundial. Para alguns, o argumento e produção de Craig Mazin criaram "a melhor série de sempre".

Razões? Chernobil assinala a atualidade do risco que continuamos a viver quotidianamente com o nuclear, razão pela qual a poderosíssima Alemanha, pela mão de Merkel, decidiu não continuar na aventura. O nuclear tem um enorme poder de produzir energia elétrica barata, ainda por cima sem emissões de carbono (claro, se não contarmos com a produção e transporte do urânio enriquecido...). Quando corre mal, surgem catástrofes com consequências para milhares de anos. Entretanto, vamos andando a brincar aos resíduos de urânio, que vão parar a todo o lado, incluindo ao fundo do mar.

O que Chernobil torna claro é que o nuclear, enquanto fator altamente competitivo para os países que o detêm, tem um preço futuro que não pode ser ignorado: a criação de buracos negros quase "eternos" nas regiões onde se instala.

Chernobil provou ainda que nenhuma tecnologia é independente do ser humano e, quando menos se espera, surgem os problemas. Para quem disse que Chernobil era um caso único, fruto do caos soviético, Fukushima desmente-o. Haverá mais precaução, tecnologia e treino de recursos humanos do que no Japão? Quem imaginou que aquele bunker tecnológico poderia ser destruído por um tsunami com aquelas características?

Em Chernobil, apesar da dimensão da catástrofe, recordemos que "só" explodiu um dos quatro reatores de Chernobil. Mesmo assim, Valery Legasov, o cientista russo que acompanhou o caso (e se suicidou dois anos depois do acidente), traçou a Gorbatchov um diagnóstico cristalino: em cada grama de urânio enriquecido existem mil milhões de triliões de átomos de urânio enriquecido. Chernobil continha três milhões de gramas. Logo é fazer as contas multiplicando as gramas de urânio pelos átomos radioativos...

Cada átomo atua como uma bala capaz de atravessar cimento, aço, madeira ou um ser humano, à velocidade da luz. É capaz de viajar pelos continentes e atuar no ar, na água e no solo/alimentos - com um efeito radioativo que pode chegar até 50 mil anos. A devastação é à escala civilizacional.

Mais à frente, já perto da central nuclear, e perante o feixe translúcido de radioatividade, o cientista nuclear assinalará que estavam a ser libertadas para a atmosfera quase duas bombas de Hiroxima a cada hora que passava após o desastre. E foi necessário sacrificar muita gente para que a fusão galopante do reator 4 não destruísse os outros três não afetados, multiplicando exponencialmente o caos.

Caso os gestos heroicos de tantos funcionários daquela central não tivessem acontecido, dar-se-ia a inabitabilidade da Ucrânia e Bielorússia por mais de cem anos e uma brutal radioatividade por praticamente todos os países da ex-União Soviética (hoje na União Europeia, incluindo a antiga Alemanha Democrática).

Mais: foram necessárias seis semanas para um grupo de mineiros escavar um túnel por baixo do reator para evitar a sua implosão e a propagação do desastre aos lençóis freáticos próximos do rio Pripyat - e o desaguar deste num dos maiores rios da Europa de Leste, o Dniepre. As consequências daí resultantes para a vida de 50 milhões de pessoas e dezenas de cidades, a primeira das quais Kiev, seriam irreversíveis ao longo de décadas. A tragédia chegaria por fim ao Mar Negro, gerando nova catástrofe ambiental e humana. (Note-se que mais de metade destes 400 mineiros que avançaram para a construção do túnel por baixo do reator 4 morreram ou contraíram cancro.)

Claro, fazendo jus à tradição da opacidade do Comité Central de Moscovo, o mundo só soube do desastre mais de 24 horas depois, quando os níveis de radiação cruzaram fronteiras e começaram a ser detetados. E seria impossível negá-los. Nessa altura o "Partido" ainda tentava fazer passar a versão oficial de um acidente (menor) e não a verdade: uma impensável explosão de um reator nuclear.

Gorbatchov acabaria por confessar que o acidente de 1986, resultante em grande parte da obsolescência técnica, económica e humana do regime soviético, acabaria por ser talvez o principal fator na implosão da União Soviética.

Por tudo isto, a lição de Chernobil, agora acessível em cinco episódios de grande televisão, não pode ser ignorada, tendo em conta que os paradigmas do bem humano se eclipsaram perante o terrorismo. Não há tópico mais crítico para o futuro da humanidade que a segurança das centrais nucleares. E, em consequência, a desativação gradual de cada uma das que ainda se mantêm em funcionamento, dando total prioridade às emergias limpas e renováveis, é a única meta possível.

Quando se vê o custo humano destes acidentes e também de quem os paga - os Estados, ou seja, os cidadãos e não as empresas de eletricidade - fica claríssimo que um acidente nuclear num país democrático representa uma hecatombe sem fim à vista. Se acontecesse no centro da Europa, mudá-la-ia para muitas décadas/séculos. Para quê insistir e não aprender com a História?

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