Usos e abusos

"À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta." A propósito do despacho regulamentar que regula os produtos a ser vendidos nos bares e bufetes do SNS.

A prevalência de obesidade tem vindo a crescer no nosso país. Os números mais recentes publicados pelo Instituto Nacional de Saúde apontam para uma prevalência de 67,7% de obesidade e excesso de peso, sendo a prevalência de obesidade 28,6%. Há vinte anos estes números eram de 49,6% e 14,4%, respetivamente. Esta evolução era previsível pois, há poucos anos, Portugal era dos países europeus com taxas mais elevadas de obesidade infantojuvenil. A obesidade é um grave problema de saúde pública, dado que aumenta o risco de doenças crónicas como a doença cardiovascular (principal causa de morte em Portugal), a diabetes mellitus tipo 2, a hipertensão, certos tipos de cancro, as artroses, as doenças digestivas e hepáticas e até a infertilidade. Individualmente, os problemas psicológicos associados à obesidade são comuns, com uma grande variabilidade de expressão clínica mas potencialmente graves.

Para a sociedade, a obesidade tem custos diretos e indiretos que põem em causa a sustentabilidade do sistema de saúde e os recursos sociais. O combate à obesidade tem de ser, não apenas pelos profissionais de saúde mas também por toda a sociedade, apoiando políticas de alimentação saudável, promovendo a prática do exercício físico e, globalmente, um estilo de vida saudável. Por isso, não faz sentido o governo criar um programa especial de apoio à cirurgia da obesidade no valor de 12 milhões de euros e não promover políticas de modificação do estilo de vida. Não é coerente o governo aplicar impostos sobre os produtos ricos em açúcar e gorduras e não impedir a venda desses mesmos produtos nos bares e máquinas existentes nos estabelecimentos de saúde de si dependentes.

Como dizia César, "a minha esposa nem sob suspeita deve estar". Não faz sentido os médicos, nutricionistas, enfermeiros e farmacêuticos recomendarem uma alimentação saudável, enquanto os doentes que aguardam uma consulta ou estão internados e os profissionais de saúde que trabalham nessas instituições vivam rodeados de alimentos prejudiciais. E como diz o povo: a ocasião faz o ladrão. Não está em causa a possibilidade de todos, nomeadamente os doentes, nos dias de festa comerem alguns destes produtos. Como dizia o pai da nutrição clínica em Portugal, Emílio Peres, "o problema é quando os abusos se tornam usos".

Diretor do Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo do Centro Hospitalar de São João

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