Uma cultura da paz europeia?

Muitas vezes ouve-se no discurso político, na Europa de lés-a-lés, a ideia de que a resposta nacional e o fechamento das sociedades e das economias poderia ser uma resposta às dificuldades atuais. Tal lógica é a do salve-se quem puder. Se considerarmos, porém, os desafios do mundo global, depressa percebemos: que os problemas atuais se devem à incapacidade de espaços económicos médios criarem condições para o crescimento e para a coesão social; que as fragilidades dos Estados nacionais projetam-se nos espaços supranacionais (a braços com a ausência de mecanismos de defesa de interesses comuns); e que a paz e a segurança obrigam à coordenação de políticas públicas que favoreçam a inovação, a melhoria da eficiência e equidade e a busca de novas possibilidades de criação de valor. A Europa fechada manterá a economia estagnada. A falta de audácia no tocante à mundialização impedirá o avanço do desenvolvimento humano. Eis por que razão os temas do investimento reprodutivo e da cooperação para o desenvolvimento, capazes de criar capital social e de favorecer a formação sustentável de riqueza, têm de entrar na ordem do dia. E sejamos claros: apesar da importância das medidas adotadas e aplicadas pelo Banco Central Europeu, continua a faltar motivação prática dos agentes económicos para investir, correr riscos e ter condições para poder acreditar nos efeitos práticos dos recursos aplicados na qualidade do trabalho, no emprego, na aprendizagem, na experiência e no conhecimento.

Percebe-se que o custo de não ter Europa ou de ter menos Europa é tremendo. Mas não se pense que falamos de uma superestrutura ou de uma burocracia desumanizada, falamos, sim, de uma coordenação fundamental, que seja capaz de ligar moeda, crédito, concorrência, competitividade, coesão, convergência e desenvolvimento. Tudo isto obriga a uma partilha de encargos e responsabilidades. Não se trata de harmonizar ou homogeneizar sociedades e pessoas, mas de favorecer a criatividade das diferenças. Precisamos de transformar a informação em conhecimento e o conhecimento em inovação. Não esqueço o que um dia disse o grande cientista Ilya Prigogine da Europa: temos de compreender que a nossa melhor riqueza é o conhecimento e a capacidade inventiva e criadora. E, se repararmos bem, a maior influência de grupos populistas deve-se não ao fenómeno europeu, mas à necessidade de criar um bode expiatório exterior para justificar a incapacidade das instituições nacionais para assegurarem a integração social e a estabilidade. Sabemos que não teríamos a paz e a prosperidade que auferimos se não houvesse instituições europeias. Contudo, não basta essa verificação, uma vez que se não mantivermos a vontade e o alento arriscamo-nos a deitar tudo a perder. Está mais do que estudado o que custaria a todos a saída do Reino Unido da União - até porque estamos perante a mais influente das praças financeiras do Euro -, do mesmo modo que sabemos que a justiça distributiva europeia exige bom senso para que o endividamento dê lugar a uma partilha de encargos, de forma que os resultados a alcançar favoreçam o bem comum. Importa, pois, tomar consciência de que o rigor orçamental é a outra face da moeda relativamente a um desenvolvimento saudável.

A democracia europeia tem de ser um ponto de encontro de todos. As ações de paz e a segurança são questões de sobrevivência. O tema dos refugiados obriga a soluções justas e duradouras. O crescimento e o desenvolvimento têm de ser objetivos comuns. O potencial económico e a capacidade para fazer frente a choques assimétricos tem de corresponder à ideia de convergência económica e social. A mobilidade dos estudantes e a prioridade da educação e da formação, da ciência e da cultura são fundamentais. Dir-se-ia que estamos apenas a reviver problemas passados e conhecidos. Todavia, hoje a sua persistência e a emergência dos egoísmos nacionais poderá ter efeitos mais dramáticos que nunca. Se o desespero destruir a frágil democracia europeia dificilmente haverá uma segunda oportunidade para salvaguardar a paz e a dignidade...

Administrador executivo da Fundação Gulbenkian

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