Todas as pessoas que vivem com hepatite C contam

Nos últimos anos, os avanços no tratamento da hepatite C foram impressionantes. Alcançou-se aquilo que poderia parecer mais difícil - a cura, e mais possibilidade da cura para praticamente todos, mas rapidamente ficou claro que para tratar todos muitos outros desafios persistiriam. Há ainda muitas pessoas com hepatite C por tratar, muitas por encontrar. A existência de uma cura com taxa acima dos 95% é imprescindível para eliminar a epidemia, mas não consegue fazê-lo por si só.

É preciso incluir as pessoas com hepatite C que, por uma ou outra razão, vivem à margem do sistema, não procuram as unidades de saúde. É preciso compreender o que poderá estar a afastar estas pessoas e encontrar abordagens diferentes para que a Saúde chegue até elas. Se a hepatite C é um problema de Saúde Pública, se todos ganhamos em identificar e tratar todos os doentes, sem exceções, cabe então ao SNS adaptar-se às pessoas e não o contrário.

Há de facto grupos mais vulneráveis e esses precisam de uma abordagem de aproximação diferente. Felizmente, as unidades de saúde já perceberam isso e têm vindo a trabalhar em articulação com as organizações de base comunitária. Prova disso mesmo são o GAT e o Serviço de Gastrenterologia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), que vão implementar juntos a primeira consulta comunitária descentralizada de diagnóstico, tratamento e seguimento da hepatite C para pessoas que usam/usaram drogas em Portugal. Um projeto inovador que, pela primeira vez no nosso país, leva um serviço formal de saúde para a comunidade, com o intuito de eliminar barreiras administrativas e de chegar a um grupo de pessoas onde a prevalência e incidência da infeção é particularmente elevada.

Estamos a falar de pessoas que estão em situações vulneráveis, em fases mais complicadas das suas vidas e que mais dificilmente se ajustam ao seguimento e regras hospitalares. Pessoas que sentem o estigma na própria pele e para quem uma ida ao hospital pode ser uma experiência extremamente difícil. Há mesmo casos de doentes abandonam depois da primeira consulta ou que não visitam um médico há largos anos e que perderam a ligação ao SNS.

Face a isto, o GAT abre as portas do centro comunitário de redução de riscos, de promoção da saúde e de rastreio, IN-Mouraria, para aí acolher a consulta de tratamento da hepatite C, que finalmente sai do hospital para se deslocar à comunidade. Ali, na nova consulta, os doentes vão poder contar com uma equipa multidisciplinar, que inclui médicos, enfermeiros, assistentes sociais e pares treinados, que desempenham aqui um papel fundamental.

Os pares treinados são pessoas que usam ou usaram drogas, mas que têm vontade de transformar a sua experiência em algo útil e que estão capacitadas para levar aos seus pares mensagens de saúde importantes. Por partilharem os mesmos códigos, os pares treinados fazem um trabalho extraordinário no terreno, facilitam muito a aproximação aos doentes e permitem que a relação de confiança se estabeleça de forma mais imediata. É fundamental estabelecer uma relação de igual para igual, assente na proximidade, na aceitação do próximo, sem julgamentos e exigências. Estamos a falar de doentes que precisam de ver que alguém os compreende e acredita neles. Não há maior incentivo para os doentes do que este.

Com este projeto, estamos a aproximar os cuidados de saúde a um grupo em risco e a reduzir barreiras. Graças à consulta comunitária descentralizada, os doentes já não precisam de se deslocar ao hospital para as consultas, nem análises e exames ou para levantar a medicação. Esta maior acessibilidade é determinante: pode potenciar a adesão dos doentes à terapêutica e, consequentemente, ditar o sucesso do tratamento.

Se o processo de tratamento da hepatite C já é complexo por si só, é-o ainda mais no caso das doentes que usam/usaram drogas. A abordagem a estas pessoas não pode ser meramente clínica, precisa de ser também social. É fundamental ajudá-las a conquistar níveis básicos de cidadania.

Com este projeto, esperamos dar mais um passo rumo à eliminação da hepatite C. Até lá, o IN-Mouraria estará de portas abertas para receber não só os doentes do bairro, mas também aqueles que venham encaminhados por outras organizações e os muitos ainda por identificar.

* Presidente do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamento)

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