Tá-se bem, Mano!

Vou só ali enfiar a varinha mágica nas goelas da Ana.

"Tá-se bem, eu vou ver isso! Tchau aí mano!" diz Tiago, o protagonista principal do vídeo da música B.F.F. de Valete, quando lhe comunicam que a namorada, Ana, o "engana" com o seu melhor amigo, Pedro. A narrativa continua, numa violência crescente, que culmina com "a caçadeira enfiada na goela" de Ana e com o simular do "tirar a vida" a Pedro, por Tiago.

Excetuando o português usado, que quase necessita de tradução para o cidadão médio, pelos palavrões e neologismos a que o rapper recorre, a narrativa corresponde ao descrito nos romances que descrevem o interior de Portugal de há 50 anos. Com facilidade recordamos, por exemplo, os belíssimos textos de Miguel Torga, cheios de Ti Maneis e Ti Marias, de caçadeiras para espantar as raposas que atacavam as galinhas, e de crimes de honra, quando a Ti Maria se distraía com o Ti Jacinto das couves. Algumas frases poderiam ser mesmo transpostas para enredos da época: "revolta macabra ele querer ver a cabra morta" ou "quem diria que iria ver-te com essa fingida / quem diria que seria o teu melhor amigo a tirar-te a vida". As referências religiosas, alegadas como justificação do comportamento de Tiago são, também surpreendentes: "dei-te amor bíblico tu eras só um cínico", "vosso casamento no inferno é o que eu prevejo"... Outras frases não poderiam ser, claro, usadas em diálogos que envolvessem o Ti Manel e a Ti Maria porque uma coisa é o Ti Manel sujeitar a mulher à "bruta pena capital", outra seria blasfemar, recorrendo mesmo a expressões que não se usavam no Portugal de então, até por lhes ser dado outro sentido (v.g. "nunca pensei que acabasses com essa doninha na minha cama").

Mas o que espanta e choca profundamente é como estereótipos de violência de género, que julgávamos há muito abandonados ("porque trabalho como um escravo para que não te falte nada"; "Quando fui eu que comprei as tuas joias, as tuas roupas") ressurgem em todo o seu esplendor numa música destinada a ser ouvida por adolescentes.

Além da inevitável discussão dos limites da liberdade de criação artística e do incitamento à prática de crime, o videoclipe constitui um alerta aos pais

Espanta, também, que o vídeo apenas contenha personagens brancas. Visará representar a violência de género como um problema sentido sobretudo pelos descendentes do Ti Manel e da Ti Maria que, entretanto, migraram para a Grande Lisboa? Onde está a Comunidade Luso-afro-descendente que Valete, em regra, procura simbolizar? Não é a violência de género um problema transversal a toda a sociedade portuguesa, seja qual for a etnia, raça ou cor das suas vitimas?

Além da inevitável discussão dos limites da liberdade de criação artística e do incitamento à prática de crime, o videoclipe constitui um alerta aos pais, para que analisem as letras das músicas que os filhos repetem, com ritmo, enquanto abanam a cabeça: "a bala a perfurar a traqueia / E o teu corpo como plateia enquanto a morte fraseia". De tanto as ouvirem pode acontecer que, num súbito desentendimento com a namorada, se lembrem de as aplicar, recorrendo não a caçadeiras, pouco comuns nos lares lisboetas de hoje, mas a qualquer outro objeto doméstico disponível para o efeito, como seja uma varinha mágica.

Resta-nos a esperança que a próxima música de Valete seja sobre as vantagens do recurso à mediação familiar e a importância de se dispor de um mobiliário confortável, acolhedor, se possível sem esquinas, durante as suas sessões... "a relação já não tinha chama" / "encontrei-te com outro na cama" / "o mediador recomendou um jantar à luz das velas"/ "engravidei-te outra vez, mana".

Que cena, manos!

Professora de Direito da Igualdade Social da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.

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