Quem ocupa o centro político

Já é recorrente: Cavaco Silva tem defendido o consenso ao longo dos seus dois mandatos. No entanto, quando atua, quebra qualquer resquício desse consenso que exista, bipolarizando as forças políticas entre esquerda e direita. Foi assim ontem à noite no discurso em que indigitou Passos Coelho. Essa indigitação era relativamente consensual, à luz do que tem sido o precedente político nos últimos quarenta anos. Passos Coelho é o líder do partido mais votado, é natural que ele seja convidado a formar governo primeiro. Mas Cavaco não ficou apenas por aí. Continuou, explicando a sua frontal oposição a um governo que não seja europeísta, e desfiando os riscos que se correm caso tal governo seja empossado. De facto, o discurso de Cavaco Silva foi a mais forte denúncia da ideia de um governo entre PS, PCP e Bloco de Esquerda desde as eleições de 4 de outubro. Nessa medida, e porque o Presidente da República bipolarizou o debate político em torno da formação de governo, ontem, o centro político ficou vazio. António Costa já se tinha afastado desse centro com a aproximação ao BE e CDU. Quanto é que não sabemos, porque o acordo não foi ainda tornado público, se é que já existe. Mas é certo que o governo do PS-CDU-BE terá sempre de ser mais à esquerda do que o programa do PS, e ainda mais das preferências de Mário Centeno, autor do programa económico dos socialistas. Todos os comentários viraram-se imediatamente para projeções sobre se Cavaco irá ou não empossar Costa. Mas antes desse momento chegar, falta ainda uma peça muito importante. É preciso ver em que medida é que Passos Coelho vai aproveitar o distanciamento do PS para ocupar o centro político. Isso ver-se-á no programa de governo e na sua composição, ocasião única para demonstrar que percebeu o que significa ter perdido 700 mil votos, e que o que disse em relação às pontes com o PS depois das eleições era verdade. Esse é um passo muito importante desta história, para compreender o que poderá ser a dinâmica eleitoral em 2016, antes de saber se o PR empossa ou não um governo de António Costa.

Politóloga

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