Presidência Portuguesa da União Europeia e a América Latina

Em recente entrevista, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, referia que o valor acrescentado da presidência portuguesa, que ocorrerá no primeiro semestre de 2021, é o seu foco na Europa social. Nada mais importante num momento em que a pandemia tornou mais evidente a importância do serviço público na resposta aos cidadãos e também as desigualdades que persistem.

Nessa mesma entrevista, são referidas as prioridades da relação da Europa com o Mundo: além da Índia e da China, será dado grande relevo a África, reforçando uma proximidade cada vez mais evidente para a qual Portugal muito contribuiu. Não será demais recordar que foi na anterior presidência portuguesa, em 2007, que se realizou a Cimeira EU-África, inicialmente envolta em grande ceticismo e até hostilidade, mas que veio a revelar-se um grande sucesso, tendo aberto caminho a uma necessária cooperação de interesse comum.

Augusto Santos Silva acrescenta ainda nesse périplo pelas prioridades externas: "Eu diria que hoje o que não está ainda totalmente claro é a forma como vamos incrementar a nossa relação com a América Latina. E devo dizer que espero algum contributo da presidência portuguesa." É igualmente a expectativa da região que será uma das mais brutalmente afetadas pelos efeitos da pandemia.

Portugal possui essa inigualável capacidade de estabelecer pontes, o que tem contribuído para a sua notoriedade internacional e para a cada vez maior presença de cidadãos portugueses em lugares-chave de organizações internacionais. Não é apenas o exemplo emblemático do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, ou do Diretor-Geral da Organização Internacional das Migrações, António Vitorino, da Presidente da parceria global Saneamento e Água para Todos, Catarina Albuquerque, ou da Diretora do Fundo das Nações Unidas para a População, Mónica Ferro. Muitos outros se encontram no olho do furação, procurando diálogos tão necessários como difíceis para conseguirmos, afinal, avançar como humanidade e não deixar ninguém para trás - essa grande ambição que se tornou lema da Agenda 2030.

Portugal, o país no extremo da Europa, é também aquele que integra a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, pertence às várias organizações do sistema ibero-americano, além da sua histórica relação com a Índia e a China, que foi capaz de transformar à luz dos novos tempos. É assim o único país que pertence, ao mesmo tempo, à União Europeia, à CPLP, à comunidade ibero-americana, o que permite construir uma cooperação triangular que aproxime e, ao mesmo tempo, aproveite as capacidades de cada região.

É nesse sentido que a Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura - OEI tem procurado trabalhar com a CPLP, aproveitando as proximidades culturais e linguísticas, apoiando iniciativas comuns e partilhando experiências em áreas fundamentais para o desenvolvimento.

A América Latina conseguiu, nas últimas décadas, atingir a meta do ensino fundamental para todos: atualmente há 177 milhões de estudantes que perseguem o sonho de uma educação que os retira da pobreza extrema e os faz aceder à classe média. Pela primeira vez se atingiu 30 milhões de inscritos nas universidades, 70% dos quais provenientes de famílias sem formação superior. Sabemos que se trata da região mais desigual do mundo e o desenvolvimento dos últimos anos que levou muitos países ao patamar da renda média, é uma armadilha que os conduzirá de novo à pobreza se não tiver sustentação.

A caixa de Pandora abriu-se com a atual situação sanitária e as suas consequências alastram a um ritmo galopante. O esforço para aumentar a cobertura educativa e trazer crianças e jovens para a escola confronta-se agora com um abandono escolar que será difícil de reverter, com particular incidência nas raparigas. Também são as mulheres que mais têm sofrido a perda de empregos (88% do total), o que significa um enorme retrocesso que pode levar muito tempo a recuperar.

A realidade será muito dura para os mais pobres, mas não podemos baixar os braços. Tornou-se ainda mais evidente a importância de trabalharmos em conjunto e reforçarmos o multilateralismo e a cooperação entre regiões. Sabemos como a pandemia afetou a União Europeia, mas importa que cada um não se feche em si mesmo e, sobretudo, consigamos manter presentes os grandes desafios do desenvolvimento sustentável.


Não deixar ninguém para trás é muito mais do que solidariedade e significa afinal a compreensão de que só a partilha nos tornará mais fortes. Não podemos desistir da cooperação nos domínios da educação, da ciência, da cultura porque serão os alicerces de uma retoma que importa colocar no horizonte. Portugal é visto nestes países como exemplo de um caminho possível e de sucesso. É por isso que contamos com a Presidência portuguesa, porque a América Latina como África são parceiros próximos e que próximos precisam de ficar.


* Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-americanos

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG