Os filósofos brancos são para deitar fora

Há dias, Sir Anthony Seldon, vice-reitor da Universidade Buckingham, disse à jornalista do Telegraph que o entrevistou que "há o perigo bem real de o politicamente correto estar a ficar fora de controlo". De onde vem o alarme de Sir Anthony? De novo surto de corretismo que se resume em poucas palavras. Alunos da School of Oriental and African Studies, da Universidade de Londres, a prestigiada SOAS, querem que os filósofos brancos, pensadores como Descartes ou Kant, sejam substituídos nos curricula por asiáticos e africanos. Ou, não sendo possível removê-los por inteiro dos programas da SOAS, que as suas filosofias sejam estudadas de um ponto de vista crítico para não deixar passar em claro o contexto colonial em que muitas das suas obras - supõem os ditos estudantes - teriam sido escritas.

Reivindicações deste género tornaram-se tão frequentes que poderão não provocar mais do que um simples encolher de ombros. Mas elas são aterradoras pelo que revelam de ignorância atrevida, de preconceito mental e de estreiteza de vistas. É assustador verificar que há alunos nas universidades europeias que consideram que podem - devem, até - pegar numa fatia enorme do pensamento humano e deitá-lo borda fora só porque foi produzido por europeus brancos e em países que tinham práticas coloniais. Como se o facto de alguns países da Europa terem tido, em períodos do passado, colónias noutros continentes os tivesse empestado, contaminado, desvirtuado e desvalorizado tudo aquilo que produziram.

Eu gostaria de dizer a esses alunos e a quem pensa como eles que a filosofia de Kant e seus pares é uma riqueza universal. Não é branca, preta ou de outra cor. É do mundo e para o mundo. Mas se ainda assim quiserem continuar a compartimentar e a discriminar o saber, poderia perguntar-lhes se quando estão doentes também tencionam prescindir da engenharia dos brancos que projetou automóveis e estradas que os levarão aos hospitais. Ou se, uma vez lá chegados, dispensarão a medicina e a química dos europeus por se terem desenvolvido na época colonial. Apetecia-me ainda perguntar-lhes se rejeitarão todas as coisas que o pensamento e o labor dos ocidentais deram ao mundo, desde o tempo das grutas de Altamira ao das viagens interplanetárias. Mas não vou alongar-me neste tipo de perguntas porque sei - todos sabemos - quais seriam as respostas e aquilo que verdadeiramente me preocupa é a frase com que iniciei este artigo: estará o politicamente correto fora de controlo? Estará a tal ponto disseminado e será a tal ponto virulento que já ninguém tem mão nele?

Não sei responder. Há 15 anos que escrevo sobre o assunto e procuro manter-me a par do que se passa nessa área. Vejo que a onda politicamente correta tem vindo a tornar-se cada vez mais fundamentalista e obtusa. Ainda que isso seja pouco patente aos olhos de boa parte das pessoas, essa onda tem vindo a corromper e a subverter o ensino, incluindo o superior. Nas últimas décadas, nas Ciências Sociais e Humanas, as universidades formaram muitos cérebros impregnados de ideias simplistas e erradas mas supostamente benévolas e justas. Formaram gerações de corretores sociais, gente que acha que, agora, por via da linguagem e de mecanismos como as quotas ou os currículos escolares, vai finalmente endireitar o mundo, corrigir erros e violências passadas e harmonizar tudo como num feliz e imaginário paraíso terrestre. Estas pessoas são milenaristas em versão laica e moderna. Julgam-se portadoras da verdade e tentam impô-la com um fanatismo de outros tempos. Sendo exteriormente pacíficas, podem ser tão perigosas e destruidoras como foram os bandos milenaristas medievais. Talvez seja isso que Sir Anthony tem em mente quando nos diz que "há o perigo bem real de o politicamente correto ficar fora de controlo".

Historiador e romancista

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