O vizinho do Norte

Há pouco mais de 200 anos, os Estados Unidos invadiram o Canadá, no decurso da chamada Guerra de 1812, que opôs os americanos aos britânicos. Tratava-se de uma segunda guerra pela independência, através da qual os Estados Unidos procuravam reafirmar a sua autonomia política e económica face à Grã--Bretanha. A invasão do Canadá, então uma colónia britânica, correu mal desde o início e os americanos sofreram pesadas derrotas, permitindo inclusivamente que uma incursão liderada pelo chefe nativo-americano Tecumseh alcançasse a cidade de Detroit, no atual estado do Michigan.

Desde 1812 que as relações entre os Estados Unidos e o Canadá não atravessavam um período tão delicado, existindo hoje diversas razões para os canadianos estarem preocupados com a eleição de Donald Trump e com a futura administração republicana. Salientemos dois deles.

Em primeiro lugar, as declarações do candidato e presidente Trump relativamente ao acordo NAFTA. Foi inicialmente um acordo entre os Estados Unidos e o Canadá, ao qual veio a juntar-se também o México. Nos últimos anos, tornou--se um espaço económico que representa um terço do PIB mundial e do qual as economias do Canadá, dos Estados Unidos e do México dependem significativamente. Num debate com Hillary Clinton, Trump chegou a considerá-lo um dos piores acordos de sempre na história dos Estados Unidos. Depois, um dos primeiros anúncios do novo presidente, logo a 22 de janeiro, foi o de que iria cumprir uma promessa de campanha e renegociar o acordo NAFTA. Para o Canadá esta intenção é, sem dúvida, uma fonte de preocupação, uma vez que 75% das exportações do Canadá são dirigidas para os Estados Unidos.

Em segundo lugar, é evidente o contraste político e ideológico entre os dois líderes. Nestes primeiros tempos da presidência Trump, este contraste tem sido particularmente evidente no que diz respeito ao tratamento das minorias e, em especial, da população de origem muçulmana. Assim que foi conhecida a ordem executiva de Trump, proibindo a entrada nos EUA da população proveniente de sete países de maioria muçulmana, o primeiro-ministro Justin Trudeau fez questão de assumir uma posição contrária, escrevendo no seu Twitter que o Canadá receberia de braços abertos todos aqueles que fugiam de perseguições, do terror e da guerra, independentemente da sua fé. Quando, alguns dias depois, um homem armado entrou numa mesquita no Quebec e abriu fogo matando seis pessoas, Trudeau considerou esta ação como um ataque terrorista a um grupo de inocentes que se limitava a praticar a sua fé e expressou a sua solidariedade para com os mais de um milhão de canadianos que professam a religião muçulmana: "Nós estamos convosco", escreveu Trudeau.

Tal como tudo o que rodeia Trump, as incertezas predominam e continuamos sem saber se o tempo, a interação com as instituições e as realidades do sistema internacional levarão o novo presidente dos Estados Unidos a alterar posições assumidas nos primeiros dias da sua presidência. Não ficou claro, até agora, em que termos pretende a nova administração renegociar o NAFTA. Mas se existe alguma área em que ainda se pode esperar que prevaleça algum realismo é a da economia e do comércio. Trump, um homem oriundo do mundo dos negócios, levará certamente em consideração alguns factos pouco "alternativos": o Canadá é o principal destino de exportação de 35 estados dos EUA e da relação bilateral entre os dois países podem depender, em última instância, nove milhões de empregos nos Estados Unidos.

Diretor do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE-IUL

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