O ressurgimento mortal do terror de direita na Alemanha

Os atentados de quarta-feira, que tiveram o triste saldo de nove mortos, são um lembrete devastador da força que o terror de extrema-direita ainda tem na Alemanha.

Depois do ataque contra nove pessoas em Hanau, na Alemanha, o alegado assassino voltou para casa onde terá também assassinado a sua mãe e depois cometido suicídio. Antes, como já começa a ser hábito, tinha produzido um manifesto de 24 páginas. O professor Peter Neumann, do King's College, um dos mais reconhecidos especialistas europeus em radicalização, teve acesso ao texto e partilhou a sua análise no Twitter, com conclusões interessantes. Há toda uma série de semelhanças que ligam o seu perfil ao de outros terroristas de extrema-direita: movidos por teorias conspiratórias, com um ódio profundo por estrangeiros e "não-brancos" (ele apelou ao extermínio de vários países do norte da África, do Médio Oriente e da Ásia Central), bem como um complexo de superioridade devido à crença em teorias eugénicas. Além disso, parecia ser consumido pela paranoia - reclamando estar sob vigilância dos serviços secretos durante toda a sua vida.

Mas o que é mais importante aqui é o padrão de ocorrências. A Alemanha continua a ser um país que convive mal com a sua herança histórica e o ressurgimento da extrema-direita nas urnas é sempre problemático. A imagem de Bernd Höcke apertando a mão de Jürgen Kemmerich, do Partido Democrata Livre (FDP), sacudiu a base da identidade nacional alemã do pós-guerra. Höcke, um homem que os tribunais alemães decidiram que poderia ser legalmente rotulado de fascista, um homem que afirmou que o "problema era que Hitler era retratado como puramente maligno", um homem que usa a palavra "Remigração", tal como o assassino de Christchurch.

Este crime ocorreu poucos dias depois de doze membros de um grupo de extrema-direita terem sido presos enquanto planeavam grandes ataques a mesquitas, muçulmanos e políticos moderados. O objetivo deles era mergulhar a ordem social no caos e impulsionar uma guerra racial.

E ocorreu apenas alguns meses após o ataque a uma sinagoga em Halle, onde a única coisa que impediu a morte de dezenas de judeus celebrando o Yom Kippur foi uma porta de madeira reforçada.

E também apenas alguns anos após um jovem radical de 18 anos com motivações raciais ter matado nove e ferido 36 em Munique, na Alemanha. A polícia e o Ministério Público levaram três anos para destacar os motivos de extrema-direita do perpetrador, corrigindo as conclusões iniciais de dois relatos que consideravam os atos apolíticos.

Vários relatórios e investigações oficiais destacam como os neonazis e/ou simpatizantes, especialmente dentro do aparato de segurança da Alemanha, começaram a organizar e coordenar seus esforços. Segundo Christoph Gramm, o chefe do serviço da secreta militar alemã (MAD), quinhentos e cinquenta soldados alemães suspeitos de terrorismo de direita, estavam sob investigação. Uma reportagem do jornal alemão TAZ em 2018 revelou a existência de uma rede de direita subterrânea bem organizada e coordenada, com vínculos com as autoridades estatais. A exceção tornou-se a norma. O Brauner Sumpf (tradução: "pântano castanho", termo usado para descrever os neonazis devido à cor dos uniformes da NSDAP no Terceiro Reich) começou a espalhar-se.

"O racismo é veneno, o ódio é veneno, e este veneno existe em nossa sociedade". Essas foram algumas das palavras finais de Merkel na sua curta declaração de hoje sobre o crime.

O sentimento faz sentido, mas talvez a comparação não seja exata. O veneno não é contagioso e não se adapta a ambientes em mudança - ao contrário do vírus que é o terror de direita da Alemanha.

Jornalista em Berlim

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