O muro e o arame farpado invisíveis

Uma imagem da beleza e do inconformismo aos 90 anos, mas com o braço direito partido, uma festa de 88 anos com um bolo com apenas duas velas - o sopro já não aguenta muitas mais -, ou uma solidão acompanhada de quem faz 92, a trincar a aliança e na companhia de amigos velhos: os que estão na fotografia e os poucos que restam na memória. O dinheiro não estica para pagar o lar, os medicamentos, as fraldas e a coragem. Três pessoas que têm estado a sós e esperam a ajuda de outras tantas para que cuidem delas. E há uma que as tem a todas, em parte, ao ombro e na carteira de uma pensão curta. Não são as três pessoas que estão sozinhas, são as quatro. Todas no limite de depressões e exaustões que não têm tempo para se curarem, mas que têm de se resignar e ser resilientes (para usar a expressão da nova felicidade e superação que se ouve em toda a parte).

Este é um muro que não tem tijolos, não tem pedras soltas, mas pode ser alto, ficar carregado de arame farpado, e só não ameaçar ruir porque ninguém o quer ver. É um muro feito de milhares de pessoas que ajudam - estima-se em 840 mil cuidadores informais, dos quais 230 a 240 mil diretos e principais -, muitos que até têm redes sociais, mas que não partilham este beautiful way of living em que a felicidade se tornou "uma opção".

Uma barreira física invisível feita de pessoas em pedaços que está em todo o lado e que um dia arrisca ganhar a rigidez suficiente para se fazer ouvir e calar o embate. Como? Elegendo contra quem nunca os viu. Dois meses após a publicação do Estatuto do Cuidador Informal, com direitos e deveres, bem como algumas medidas de apoio, falta, porém, a regulamentação. Faltam ainda mais medidas sociais consistentes e permanentes. E o prazo está a expirar, como a vida e a saúde mental destes milhares de portugueses. Um muro cuja construção é dispensável, mas que está a começar a ser erigido com um silêncio acamado, dentro de casas espalhadas por todo o país.

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O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

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