O corte e a faca

A violência em contexto de intimidade já começa a somar vítimas em 2020. Desde denúncias previamente conhecidas às que ainda estão por denunciar, os cortes no amor feitos à faca começam cada vez mais cedo, na adolescência, e prosseguem vida fora, até ao limite da (des)esperança média de vida. Nesta semana acordámos com mais uma vítima, mulher, de 80 anos, que sucumbiu fatalmente às mãos do marido, também octogenário, e de uma faca. A seis cortes e uma separação decisiva e eterna.

Não escasseiam, porém, os relatos e alguma conformada surpresa - muitos dos agressores até já estavam identificados - na conclusão que atira tantas mulheres para esta faca que vai cortando o amor, primeiro o da relação, depois o próprio: os rendimentos.


Em todos os casos existe a alegada razão que fez transbordar a água deste copo, tudo o que fica por explicar e parece sempre escapar ao olhar de todos os que, afinal, viam. Não escasseiam, porém, os relatos e alguma conformada surpresa - muitos dos agressores até já estavam identificados - na conclusão que atira tantas mulheres para esta faca que vai cortando o amor, primeiro o da relação, depois o próprio: os rendimentos.

É mesmo sobre o trabalho e o que se aufere dele que repousa a maior fragilidade na vida das mulheres. Não raras vezes, é por aquela circunstância que ficam adiadas as decisões definitivas, as ruturas, uma saída de casa ou mesmo, mais simplesmente, outras opções no quotidiano.

E se o reforço de perto de um milhão de euros em atendimento e em apoio especializado anunciado na semana passada para alargar a cobertura nacional de estruturas pode mudar o curso de vidas, é importante lembrar que a existência é feita também de quotidiano. Todo o apoio é urgente, mas é também e sobretudo no dia-a-dia que as vidas acontecem. E sem rendimentos iguais, todas as decisões arriscam ficar no fio de uma navalha, à beira de um corte que é preciso... cortar.

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