O Afeganistão é seguro para quem?

Iria amanhã ao Afeganistão? Se segue as notícias, a resposta mais provável é que não o faria. Talvez tenha lido sobre o carro--bomba que matou 150 pessoas em maio, ou sobre os homens armados que atacaram os escritórios da Save the Children, em janeiro, ou sobre a ambulância cheia de explosivos que rebentou numa rua apinhada em Cabul.

Se está na Europa, é provável também que o seu governo o tenha aconselhado a não viajar para o Afeganistão, enunciando riscos de rapto, de ataques indiscriminados e de confrontos entre grupos armados.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, por exemplo, alerta para a ameaça de ataques "de larga escala" sempre iminentes e lista restaurantes, lojas e mercados como locais perigosos. Os governos da Noruega e da Alemanha fazem avisos similares: o Afeganistão está imerso em convulsão política, é inseguro, é mortal. Mas estes governos não consideram as vidas de todas as pessoas igualmente merecedoras de proteção. Por toda a Europa, países como a Noruega, a Alemanha e o Reino Unido insistem que o Afeganistão é suficientemente seguro para que as pessoas para lá regressem.

Taibeh Abbasi, de 18 anos, conhece os perigos de viver no Afeganistão, de onde os pais fugiram antes de ela nascer. Há dias, Taibeh - que vive em Trondheim há cinco anos - recebeu a informação devastadora de que as autoridades da Noruega rejeitaram reavaliar o seu caso, mantendo a decisão de a deportar e a outros membros da família.

Em contraste com a crueldade e a indiferença das autoridades, os amigos de Taibeh organizaram protestos, escreveram a políticos e instaram o governo a protegê-la, atribuindo-lhe o direito a ficar na Noruega. Estes apelos urgentes e apaixonados caíram em orelhas moucas e Taibeh pode ser deportada a qualquer momento, deixando um vazio enorme na comunidade a que pertence.

O Afeganistão não é mais seguro para Taibeh do que seria para si - os ataques indiscriminados não são assim. E nem sequer lhe é mais familiar: Taibeh nasceu no Irão, nunca esteve no país de onde os pais fugiram. Quando chegar a Cabul, a família vai estar separada dos amigos e da rede social construída na Noruega. Em Cabul não têm onde morar nem forma de sustento. Taibeh está mais habituada a falar norueguês do que farsi. Vai ter de comprar roupas e aprender as intrincadas regras de comportamento num local onde os direitos das mulheres são profundamente restringidos.

Na Noruega Taibeh é uma aluna de notas máximas, trabalhou sempre muito para ir estudar Medicina. Os professores não têm dúvidas de que na Noruega ela alcançaria esse sonho. Mas vai ser forçada a abandonar a escola semanas antes dos exames - todo o seu empenho será desperdiçado. E no Afeganistão terá enormes barreiras para prosseguir os estudos: dois terços das adolescentes afegãs não vão à escola e as que o fazem vivem no medo constante de serem atacadas.

Há muitas pessoas na mesma situação, na Noruega e por toda a Europa. Investigações da Amnistia Internacional mostram que entre 2015 e 2016 o número de afegãos deportados por países europeus quase triplicou, de 3290 pessoas para 9460. A Alemanha, a Grécia, a Suécia e o Reino Unido estão entre os que mandam afegãos de volta ao perigo, apesar de, ao mesmo tempo, emitirem alertas sobre os riscos de viajar para o país.

Esta duplicidade de critérios revela o desrespeito que os líderes europeus têm pelas vidas de refugiados e migrantes. E demonstra como as pessoas como Taibeh se tornaram peões num jogo político, usados por partidos anti-imigração para ganhar terreno.

A ministra norueguesa das Imigrações, Sylvi Listhaug, admitiu que não iria ao Afeganistão, mas insistiu que é diferente para os afegãos. É difícil não notar o insinuante racismo de declarações como esta. As bombas são terríveis para todas as pessoas. Se o Afeganistão não é seguro para britânicos nem suecos, nem para ministros, também não é seguro para adolescentes que nunca viveram no país, nem para quem fugiu de perseguição.

Se as autoridades norueguesas avançarem com a deportação, a história de Taibeh seguirá o curso deprimente e familiar aos afegãos deportados pela Europa. Será tirada de casa, detida e enfiada num avião rumo a uma zona de guerra. As autoridades da Noruega não saberão o que lhe acontecerá após sair do avião em Cabul. Lavarão as mãos do seu destino. Não vão monitorizar se a avaliação que fizeram de o Afeganistão ser "seguro" está correta. Não vão confirmar se a decisão que tomaram é certa, nem se devem alterar a política a aplicar a outras pessoas no futuro.

Esta é a vergonhosa realidade da política míope e desorientada dos governos europeus para os retornos de afegãos. É paga com as vidas das pessoas. E nesta semana poderá custar à Noruega uma jovem médica brilhante.

* Campaigner da Amnistia Internacional sobre Direitos de Refugiados e Migrantes

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