No supermercado com Luigi Pirandello

Há uma nova figura de turista. É discretamente apressado, mas faz questão de não ser superficial; bastante culto, quer ser também informado. Daí a sua viagem prever a volta do costume (monumentos, museus...), mas também encontros com jornalistas e residentes locais que lhe falem do país. Como um historiador moderno, não quer apenas a biografia do rei cuja estátua acaba de fotografar, quer saber do PIB, da dívida, da taxa de desemprego. São cidadãos europeus à descoberta da Europa. Alguns estão a pensar seriamente em mudar-se para cá, atraídos pelos benefícios fiscais e os preços simpáticos. Em Itália, quem organiza este tipo de viagens é, nada mais nada menos, o Corriere della Sera, e a comitiva é guiada por nomes prestigiados da redação.

A conversa é descontraída e passa (ou descamba) facilmente dos dados macroeconómicos para as minudências daquilo que se costuma definir como "carácter nacional". De facto, é uma gincana difícil entre observações pessoais e lugares comuns. Em ambas as palestras para que fui convidado veio à baila uma característica dos portugueses apontada frequentemente pelos estrangeiros, em geral, e mesmo pelos italianos, embora estes, muitas vezes, partilhem do mesmo suposto feitio dos povos do Sul, categoria etnográfica que recebeu um novo impulso teorético depois das recentes dissertações de Jeroen Dijsselbloem. De acordo com essas observações, um elemento que caracteriza Portugal é a lentidão. Na rua, nas repartições, no atendimento a clientes, os portugueses seriam, para os europeus, aquilo que o português médio, do Tejo para cima, acha dos alentejanos: lentos.

Esta lentidão é como a temperatura, que se divide em efetiva e percebida. Ou seja, pode resultar tanto numa sensação aprazível de conforto térmico como numa caloraça desgraçada. É alvo de insultos quando nos trazem a bica morna, depois de a terem deixado arrefecer no balcão, mas também pode, como a loucura de Erasmo, merecer filosóficos e rasgados elogios quando o estrangeiro pode curtir o sol como um lagarto.

Opiniões, pontos de vista... "Assim é, se lhes parece", escreveu há cem anos (1917) Luigi Pirandello, Nobel da Literatura de quem agora, também por cá, teatros, universidades e o Instituto Italiano de Cultura comemoram os 150 anos do nascimento. No ensaio O Humorismo, o escritor siciliano distinguiu comicidade e humor. Baseiam-se ambos numa experiência contrária àquilo que esperamos da realidade, mas com níveis diferentes de perceção. Uma velha com a cara desajeitadamente pintada é apenas cómica, se nos ficarmos pela primeira impressão, aquilo a que Pirandello chama "sensação do contrário". Já o humor é comicidade mais reflexão, implica o "sentimento do contrário", isto é, sentir que atrás de um rosto maquilhado grotescamente se esconde a saudade da juventude e o medo da velhice e da morte.

Foi assim que, depois de mais um debate com os meus turistas, fui ao supermercado e dei por mim na caixa errada, aquela onde a fila não avança. Influenciado pela conversa recente, a sensação do contrário remeteu-me para a lentidão nacional. Imaginei um cliente que, enquanto digita o código multibanco, pede o número de telefone à menina da caixa; ou uma funcionária zelosa que ilustra à avó a nova caderneta de cromos em oferta para compras superiores a 10 euros. Mas espreitei e vi um senhor idoso, pobremente vestido, que discutia o preço de um detergente. A funcionária da caixa ligou o microfone e chamou a funcionária da reposição, dando início a um processo de revisão do preço que, como sabemos, pode arrefecer muitos jantares. Não cheguei a perceber quem tinha razão, mas vi que a conta final foi pouco superior a dois euros. O senhor tinha estado a discutir por uma diferença de uns trocos. Ou seja, à cabeça da fila imóvel estava um velho, talvez reformado, desses obrigados a contar todos os dias os cêntimos que restam até ao fim do mês. Então da lentidão étnica dos povos do Sul voltamos à economia dos salários étnicos, lentíssimos, do Sul. O humor é chato, não tem piada nenhuma.

* jornalista freelancer, colaborador da qcodemag

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