Mundo multipolar, Portugal bipolar

Antes de mais, a confirmação de uma má notícia: o novo governo alemão que tomou posse na semana passada. Demorou seis meses a formar-se para sair uma manta de retalhos mal alinhavada. Já se temia, mas o resultado dificilmente poderia ser pior para um país como Portugal.

A governar naquela que é a "grande coligação" mais pequena de sempre - porque cada vez menos gente vota ao centro -, Angela Merkel parece que afinal já não vai garantir a paz mundial, salvar a União Europeia e, por arrasto, apoiar Portugal. A situação está mais complicada, mais instável e mais incerta do que nunca para a UE. E o enredo adensa-se.

Com a saída de Wolfgang Schäuble, o pai do diktat financeiro alemão, as coisas pareceram, durante breves instantes, estar bem encaminhadas. Por pouco tempo, parecia que vinha aí um governo Merkel mais aberto, a funcionar em parceria com o SPD liderado por Martin Schulz, disposto a aprofundar a União Europeia. Vinha aí, essa era a esperança, uma nova grande coligação disposta apoiar os sonhos de Macron em Paris: uma União Europeia mais forte e coesa, com um orçamento relevante, com um ministro das Finanças comum e com meios para integrar as economias mais debilitadas. Engano. Nos últimos metros, Martin Schulz tropeçou nos próprios pés, depois de lhes dar vário tiros, para acabar estendido no chão, afastado tanto do governo como da liderança do partido.

Em vez disso, Merkel rodeou-se à direita de ministros com um discurso xenófobo e antieuropeu, na patética tentativa de tirar força ao AfD, o partido de ideologia neonazi que é agora o maior partido da oposição no Parlamento de Berlim. É o caso do novo ministro do Interior que, numa mudança do nome da pasta, é agora também ministro com o pelouro da Heimat (uma expressão algures entre a ideia de "terra natal" e "pátria" numa não muito subtil piscadela de olho ao eleitorado da extrema-direita).

À esquerda no novo governo de Merkel, o SPD indicou ministros que ficam bem na televisão ou, no pior dos casos, "travestis" políticos, como o novo ministro das Finanças e novo líder do SPD, Olaf Scholz. E essa é a notícia pior para Portugal: Scholz já tinha dito que subscrevia na íntegra a política de extremo rigor orçamental do seu antecessor, Wolfgang Schäuble, e agora começou a dar provas disso mesmo. Como se viu na visita de Merkel a Paris, onde Merkel e Macron demonstraram intimidade e a chanceler fez discursos bonitos com muita retórica europeia. Mas em eventos paralelos, o novo ministro das Finanças alemão encontrou-se com o seu homólogo francês para lhe dizer - quanto às ambições de um reforço e aprofundamento das instituições europeias - "chapéu". E assim se começa a perder, logo no arranque do eixo Paris-Berlim, com Merkel ao volante e Macron na buzina, a oportunidade de a União Europeia se constituir, finalmente, como potência de levar um pouco a sério num mundo cada vez mais multipolar. A UE independente dos EUA e da Rússia permanece um sonho francês adiado pela Alemanha.

O novo ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, também do SPD, é igualmente uma má notícia para a Europa. Sem fazer a menor ideia de como resolver os problemas com os Estados Unidos da América de Donald Trump, uma das suas primeiras medidas foi puxar o tapete aos seus colaboradores que tentavam normalizar as relações com a Rússia de Putin. Agora, em vez de normalização, prossegue um discurso cada vez mais belicista, tanto em Washington como em Londres, em Moscovo, Bruxelas e Berlim.

Para terminar, a péssima notícia: dez anos depois do início da crise, Portugal mantém-se como país sem rumo, baralhado nas prioridades, errático na estratégia. Portugal é um doente bipolar na UE e a "clínica" tende a agravar-se. Um país entre a depressão e a euforia. Que navega entre a megalomania e os achaques crónicos, entre os entusiasmos da Web Summit, startups, as apostas na tecnologia aeroespacial, o 4.0, de um lado, e os buracos na estrada, as linhas de comboio a desfazerem-se, as estruturas a ruir, a burocracia medieval e os cofres vazios, do outro. Entre a seca e as inundações. Entre o orgulhoso e o vendido por tuta e meia. Entre "somos os maiores" e a sopa dos pobres. Entre a saudade e a desgarrada.

Correspondente do der Freitag e EN-24