Missão impossível

O momento que vivemos não esqueceu ainda esses sonhadores da utopia mas já não as vive

Se o futuro é a aurora do passado, segundo a paradoxal e otimista visão de Pascoaes, imaginar um texto que ainda possa ter sentido daqui a um século é para mim o mais impossível dos desafios. Precisaria da ajuda celeste da raça dos Júlios Vernes e dos Bradbury. Os deuses não me deram nem os dons de Cassandra, mais ou menos metafísicos, nem os dos poetas da imaginação improvável.

O momento que vivemos não esqueceu ainda esses sonhadores da utopia mas já não as vive nem espera que se realizem como no momento em que pareciam plausíveis. Nem do futuro próximo do nosso planeta sem garantias da sua eternidade estamos certos. E as ficções de Hollywood com que reciclamos essa visão de um futuro mais ou menos divino não são senão a transposição apavorada do cenário nebuloso ou de puro pesadelo do nosso próprio desencantado presente. O que chamamos História - e foi durante dois milénios a fábula que dava sentido à nossa imprevisível aventura - ainda não deixou de ser, como Antero de Quental a evocou, uma Penélope sangrenta.

Para escapar à nossa longa memória sob a sua égide, os mais audaciosos dos humanos já se imaginam a caminho de terras mais pacíficas onde reinaria, enfim, aquela famosa Paz Perpétua imaginada pelo mais calmo dos filósofos. Ou o seu mais subtil ironista.

Paz perpétua só a dos cemitérios. Foi por causa dela e em função dela que nós inventámos uma outra vida eterna na qual o eterno esquecimento da única que conhecemos, por milagre maior do que o da Criação, se convertesse em luz perpétua.

Talvez daqui a cem anos a humanidade (ou uma parte privilegiada dela) tenha já ao seu alcance, não essa versão da "Morte da Morte" que Shakespeare evocou, nem a sonhada vida eterna que só os olhos da fé nos fabricam, mas uma espécie de "eternidade" caseira, portátil, de nossa invenção: a de uma mais longa vida como aquela que José Saramago ficcionou como o mais kafkiano dos pesadelos.

Nesse caso conviria felicitar esses longevos futuros. Sem ironia nem inveja. Rilke pedia a Deus que desse "a cada um de nós a sua própria morte". É o que a mesma Morte faz sem parar por conta de Deus ou de si própria. Todo o silêncio de que somos feitos não faria melhor.

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