Lisboa sossegada e viva

Na cidade adormecida

a noite tornou-se enorme

cabe nela a curta vida

mas sente que é mais comprida

esta errância que não dorme

Vasco Graça Moura

O 28 sobe vazio e lento a Calçada da Estrela, na Baixa e na Praça do Comércio a chuva deixa um brilho nas calçadas que ninguém mancha, os fados silenciados, os alfarrabistas fechados e o Campo de Santa Clara deserto. É abril e este ano não podemos celebrar o dia 25, que será um sábado um tanto triste ainda que ouçamos Grândola, Vila Morena em alguma rádio para matar saudades.

Mas não se deixem enganar, não, Lisboa está apenas a hibernar.

Sentíamos saudades do sossego de Lisboa depois da invasão daquele turismo exagerado que, egoísta, indiferente, ia desalojando os habitantes dos seus bairros antigos e convertendo a cidade num parque temático. Mas hoje é uma paz um pouco triste. Estão vazios os cafés onde os fregueses costumavam contar uns aos outros as suas tristezas e alegrias, esquecidas as mesas dos parques onde os reformados jogavam as suas partidas de cartas, fechados os parques infantis. Os lisboetas, os alfacinhas que dão a verdadeira vida aos seus bairros estão fechados nas suas casas, muitas idosas ficam sem visitas e sem essas conversas triviais, mas necessárias para irem passando os dias, sem verem as suas amigas e poderem demorar-se junto à padaria. Elas não têm internet para fazer videoconferências.

Mas temos os profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, condutores de ambulância, os bombeiros cuja sirene soa alegre todas as manhãs no seu quartel da Avenida D. Carlos I, os padeiros que amassam, as caixas dos supermercados, os transportadores com as suas carrinhas, e os que levam encomendas aos domicílios, temos os carteiros como o do meu bairro, Homero, que ama a poesia, e os que limpam as ruas e os parques, os que nos vendem o jornal. São os nossos heróis de hoje, esses que têm um salário tão baixo e cumprem o seu dever, são os que nunca consideramos suficientemente, aqueles a quem nada sobra e que são indispensáveis. Quando tanto falamos de direitos damo-nos conta do importante que é o cumprir do dever.

Eu não sei se esta crise (crisis em grego significa mudança) mudará muitas coisas, como muitos esperam, ou se voltaremos aos maus costumes de sempre. Mas, pelo menos, servirá sim para estimar e respeitar muito mais os trabalhadores que menos contam, a esses que damos como garantidos, os que eram invisíveis. Espero que não esqueçamos quem são os que garantem e asseguram a nossa vida quotidiana.

Pode ser que também sirva para que quando se discutirem os orçamentos não sejam mesquinhos com os ordenados de todos esses servidores públicos, e para que os empresários entendam a quem devem que as suas empresas funcionem e sobrevivam todos os dias.

Enfim, os dias ir-se-ão fazendo longos, pela luz e pelo encerramento. Tenhamos paciência e Portugal saberá estar, como sempre, à altura das circunstâncias, demonstrando, como demonstra, essa invejável unidade e esse sentido generoso, amável do país.

Lisboa despertará mais tranquila, mais suave, mais descansada e com uma energia que não signifique tumulto e, na melhor das hipóteses, porá um limite ao ruído que a invadia e que era tão contrário à sua alma sonhadora e um tanto melancólica. Os parques e jardins, depois de semanas de descanso, de chuvas e de sol, receber-nos-ão floridos à espera de que os tratemos bem. Os galos e galinhas do Campo de Santana agitar-se-ão um pouco ao ver-nos voltar. E tomaremos o nosso cafezinho com um bolo de arroz num desses cafés reluzentes e tranquilos que anunciam sempre "fabrico próprio", onde os fregueses são os do costume. Poderemos aproximar-nos no belo mercado de Arroios, branco e redondo, luminoso, onde as vendedoras são tão amáveis e os produtos tão frescos.

A tasca de comida honesta, que resistiu à banalidade dos tempos consumistas, vai-nos esperar quando chegarmos com os amigos reencontrados, e teremos o peixe grelhado do mercado de Alvalade e o jarro de vinho da casa, ou o cozido que se faz na Calçada da Ajuda. E não teremos nada que contar, apenas ver-nos e falar de qualquer coisa. Voltaremos a procurar, num sábado de manhã na Feira da Ladra, aquele livro difícil de encontrar que talvez esteja na livraria do Martinho ou na banca do senhor Luís; e, na melhor das hipóteses, o Miradouro de Nossa Senhora do Monte não estará cheio de tuk-tuks e turistas e poderemos contemplar o fim do dia acompanhados com uns versos de Nuno Júdice ou de Sophia, que viveu por ali perto.

Advogado e escritor espanhol

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