Jesus tem três pais

Não se pode andar a dizer "Je suis Charlie" e, depois, vir declarar embaraçadamente que o cartaz do Bloco de Esquerda "foi um erro". Ou bem que se pode brincar com a religião e com os seus protagonistas - sejam eles do islão, católicos ou outros - ou, então, não há qualquer legitimidade para andar a distinguir entre "radicais islâmicos" e "os sentimentos religiosos do povo português".

O humor, quando nasce, é para todos. E a possibilidade de provocar, de irritar e até de ofender é, também, um pilar indispensável da liberdade de expressão. Ofender, sim: se um jornal deve poder publicar um desenho do profeta Maomé em pose de sodomização, e se um artista deve poder publicar um Manifesto Anti--Dantas, porque é que um cartaz político não há de poder ofender sentimentos religiosos?

O cartaz em causa, porém, não ofende coisa alguma. Segundo a narrativa bíblica, Jesus tem efetivamente dois pais, um espiritual e platónico e outro terreno. Em boa verdade até tem três, uma vez que foi "por obra e graça" do Espírito Santo que Nossa Senhora concebeu. E, se quiséssemos levar ao limite o carácter trino da divindade, uma vez que Cristo faz parte da Santíssima Trindade, ele é, sem forçar, pai de si próprio. Mas talvez quatro pais seja de mais...

Adiante. O que é profundamente lamentável é que partidos como o PSD e o CDS-PP tenham vindo, imediatamente, tentar obter ganho de causa numa coisa irrelevante, para não dizer inocente. Lá que a Conferência Episcopal tenha soltado um lamento por causa da explícita conotação homossexual da coisa, compreende-se e faz parte. Mas que dois partidos republicanos e laicos tenham procurado ganhos eleitorais nesta matéria mostra bem a sua qualidade política atual. Sá Carneiro seria incapaz de o fazer. Paulo Portas fez igual e pior no Caderno 3 d"O Independente. E Mário Soares, que se aliou à Igreja em 1975 para não repetir os erros da I República, teve sempre uma conduta irrepreensível nestes casos.

O pior de tudo, porém, foi o próprio Bloco de Esquerda. A forma como Marisa Antunes, Francisco Louçã e Catarina Martins meteram o rabo entre as pernas e vieram pedir desculpa pelo "erro" atraiçoa, na essência, o papel de representação política que o BE adquiriu na sociedade portuguesa. Tendo nascido à volta de causas fraturantes e de uma forma irreverente de estar na vida pública, o Bloco transformou-se numa máquina política que passou a procurar, sem critério, agradar a toda a gente. Foi por isso, aliás, que encaixou sem um "ai" os corretivos da Comissão Europeia ao Orçamento do Estado.

Deixou de ter uma orientação política estratégica e anda hoje, todos os dias, a lutar pelas audiências. Vai correr-lhe mal.

Consultor de comunicação

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