Women in black

Fixemo-nos na imagem: uma plateia quase integralmente vestida de negro. Um protesto que entrava pelos olhos antes de se ouvir os discursos. Um símbolo de união que, como disse a Wonder Woman Gal Gadot na passadeira vermelha, se traduziu em elegância. Ontem à noite, na 75.ª cerimónia dos Globos de Ouro, as mulheres estavam mais fortes do que nunca, contra o assédio sexual. A exceção ao dress code fez-se notar na figura da própria presidente da Hollywood Foreign Press Association, Meher Tatna, que se apresentou no palco com uma indumentária vermelha. Quem não reparasse que, apesar disso, ela estava a usar um pin do movimento Time"s Up poderia ficar baralhado Calma. A razão da escolha teve simplesmente que ver com os rituais da sua cultura indiana, segundo a qual, tratando-se de uma celebração, deveria usar uma cor festiva.

E de facto não foi pelo tom fúnebre dos vestidos que se conduziu a cerimónia. Antes pelo contrário: de Nicole Kidman a Reese Witherspoon, passando por Laura Dern, Elisabeth Moss (todas vencedoras), e ainda pela bela tirada de Natalie Portman na entrega do galardão ao melhor realizador ("E aqui temos os, apenas homens, nomeados"), os discursos de esperança dominaram o encontro. Mas foi Oprah Winfrey quem protagonizou o momento mais alto, ao receber o Prémio Cecil B. DeMille. Com as suas palavras certeiras, que tanto defenderam o trabalho da imprensa nestes tempos complexos como encorajaram as jovens que têm sonhos, ela fez rejubilar a sala inteira.

Por fim, o filme vencedor - Três Cartazes à Beira da Estrada - e a sua protagonista, Frances McDormand, no papel de uma mãe que procura vingança pela violação e a morte da filha, coroaram a noite. E talvez estes prémios mereçam uma reflexão elementar: ainda estamos a falar de cinema ou da atualidade dos seus temas?

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Pode a clubite tramar um hacker?

O hacker português é provavelmente uma história à portuguesa. Rapaz esperto, licenciado em História e especialista em informática, provavelmente coca-bichinhos, tudo indica, toupeira da internet, fã de futebol, terá descoberto que todos os estes interesses davam uma mistura explosiva, quando combinados. Pôs-se a investigar sites, e-mails de fundos de jogadores, de jogadores, de clubes de jogadores, de agentes de jogadores e de muitas entidades ligadas a esse estranho e grande mundo do futebol.

Premium

Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Premium

Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.