Visionamento com ovação

Estamos naquela fase em que os departamentos de marketing dos grandes estúdios de Hollywood colocam em pé de igualdade os jornalistas e os bloggers. Aconteceu precisamente isso no visionamento a abarrotar de Star Wars - Os Últimos Jedi esta segunda-feira em Londres, no gigante IMAX da Cineworld. Cerca de mil almas entre jornalistas de todas as idades e feitios e muitos bloggers, campeões de redes sociais e os chamados social influencers. Nesta altura do campeonato, são muitos os que acreditam que um filme fica mais bem servido com os ecos de uma celebridade no Facebook do que num artigo ou reportagem. A imprensa está a ficar para segundo plano neste circo promocional. Não há muito tempo, lembro-me de estar em Paris num evento de lançamento dos filmes da Netflix e ter visto mais social influencers do que jornalistas.

Sinal dos tempos dirão alguns, "chico-espertice" penso eu. Aos poucos, com essa reverência pela ratificação dos não-especialistas e da opinião de rede social, esses mesmos estúdios estão a criar uma nova raça de censura.

Todavia, pessimismos à parte, o ambiente na sala era especial. Gente verdadeiramente excitada e feliz por ir ver um filme! Coisa rara nos nossos dias...Mas Star Wars continua a ser mais do que cinema, é uma religião, conforme confirmei presencialmente na Star Wars Convention esta primavera em Orlando. Naquele cinema de Leicester Square havia aquela camaradagem dos fãs, não importa se jornalistas ou profissionais da opinião social media.

Depois, para surpresa de todos, aparece Rian Johnson, o realizador, a apresentar a sessão verdadeiramente entusiasmado ao lado do verdadeiro robô BB-8. Dizia-nos que nem estava a acreditar que o filme que acabou de fazer ia ser visto num ecrã tão grande. Estava a ser sincero. No final, houve aplausos e lágrimas de aprovação. É tão bonito quando o grande cinema de entretenimento consegue isto...

Ler mais

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.