Uma romântica aventura marítima

O que levou Jacques-Yves Cousteau à sua romântica aventura marítima? O que é que o fez trocar a farda da marinha francesa pelo icónico barrete vermelho de comandante? Segundo A Odisseia, de Jérôme Salle, foi como que um atalante, um desejo súbito de descobrir e possuir os oceanos, com um globo terrestre na mão. O Atalante? Filme sublime de Jean Vigo, com um barco assim batizado, que deveria ser o lar para os recém-casados Jean e Juliette. Algo semelhante aconteceu com Cousteau e a mulher, Simone, que vendeu as joias para recuperar o navio Calypso, e fazer dele a sua morada. Uma vida no alto-mar que os foi distanciando, mesmo no espaço abreviado dessa casa flutuante. Lembrei-me de O Atalante não apenas pelas coincidências de sentido e conjuntura, mas pelo lirismo que encontramos nesse título francês de 1934, e que muito dificilmente podemos encontrar no filme de Salle. Cheio de imagens subaquáticas - as que deram sentido à viagem fantástica de Cousteau pelo manto azul da terra - A Odisseia pouco deslumbra nessa captação de um ecossistema. É como se víssemos panfletos turísticos, daqueles que atraem a atenção em expositores de agências de viagem. Aliás, todo este biopic tem essa estrutura de "episódios-postais", uma sucessão de momentos mais ou menos relevantes que nunca chegam a adquirir profundidade. Jacques Cousteau que, com espírito conquistador (tanto em relação ao mar como em relação às mulheres), acreditou ser possível ao homem viver debaixo de água num futuro não muito longínquo, é retratado num filme incapaz de recuperar um décimo da magia que quis levar às pessoas através dos seus documentários... Por mim, trocava este pobre A Odisseia pela magnífica e única cena subaquática de O Atalante, em que Jean procura uma visão da sua Juliette por entre a neblina líquida.

Crítica de cinema

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.