Uma democracia para os jovens de hoje

Sobre a juventude há, porventura, apenas uma característica que com certeza lhe podemos atribuir: o seu carácter transitório. Mais do que um período, a juventude é, essencialmente, dinâmica e transformação.

As Nações Unidas estimam que, dos mais de sete mil milhões de pessoas que vivem no planeta, cerca de 1,8 mil milhões tem hoje entre 10 e 24 anos de idade. O que verificamos é que, neste imenso mar de jovens, têm crescido nos últimos anos os conflitos entre as novas gerações e os demais grupos sociais. Essa dinâmica tem sido quase sempre lida com recurso a velhas comparações entre gerações - a atual e a do maio de 68, por exemplo, a atual e a do período pré-democracia, a atual e a dos anos 90 - sendo que o saldo destas comparações tende a ser negativo para a presente geração jovem.

Este tipo de análise tem, creio eu, dois erros. O primeiro, é que não há dois jovens iguais, não há grupos de jovens iguais: cada caso é um caso e a diferença é uma das marcas da juventude contemporânea. O segundo erro é interpretar o seu afastamento generalizado da política - o qual, no caso português, é tão comum nas questões nacionais como nas questões europeias - como a prova de que os jovens não se interessam pelo futuro da sociedade e pelo bem comum: a realidade, no entanto, desmente-o, uma vez que os jovens se empenham muitíssimo em certas causas, sejam elas ambientais ou sociais, como os recentes debates sobre a eutanásia ou a prospeção de petróleo na costa portuguesa comprovam.

A questão está, portanto, em percebermos o que interessa efetivamente aos jovens reais de hoje. E, percebendo-o, procurar os mecanismos que os possam aproximar da atividade política em geral - e das questões europeias em particular. É também por isto que Cascais 2018 - Capital Europeia da Juventude defende a criação de um Observatório Europeu da Juventude que permita conhecer o percurso e os trajetos juvenis.

Na Cascais 2018 estamos a preparar para o final de setembro (em parceria com o ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa) uma conferência com o tema "O que é que leva os jovens a terem intervenção social e a envolverem-se na política?". Não se trata de prescrever nada para os jovens de hoje. Trata-se de os perceber. E, sobretudo, de não os entender mal!

O acesso à internet, à mobilidade a custos reduzidos, ao conhecimento e à informação, transformaram as cadeias de valores e as prioridades das novas gerações. Não é de admirar, portanto, que o tempo das decisões a que os jovens de hoje aspiram esteja muitas vezes desfasado do tempo das decisões que a sociedade lhes oferece, nomeadamente o tempo que as democracias levam para tomar as decisões políticas com que tentam responder às suas expectativas e ambições.

É desta fratura que resulta, tantas vezes, a sensação difusa de uma justiça intergeracional pouco respeitada: as democracias tradicionais têm um tempo e um modo que, nestes dias, parece não servir os cidadãos mais jovens. É neste quadro que muitos deles se sentem atraídos por propostas políticas simplistas e radicais, que tendem a generalizar soluções para problemas distintos e complexos.

Só há, a meu ver, uma boa forma de ultrapassar este problema. Os sistemas democráticos têm de se atualizar, integrando as novas formas de vida das jovens gerações, os seus problemas, as suas ambições, o caminho que escolhem para alcançar a felicidade. As democracias têm de se recriar para que os jovens tenham o direito real, concreto, de tomar as suas próprias escolhas. E o sistema político tem de abrir o espaço necessário para que cada um assuma a sua identidade, seja individual, seja de grupos.

Não vale a pena dizer que os jovens de hoje não têm causas. Têm pelo menos uma - adaptar as democracias liberais ao tempo e ao modo da sua forma de vida. Haverá melhor causa que esta?

Comissária da Cascais 2018 - Capital Europeia da Juventude

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