Um Papa em contraciclo

A envergadura moral, a cultura ecuménica e as preocupações humanitárias que caracterizaram estes primeiros cinco anos de Pontificado não constituem para nós, argentinos, qualquer surpresa. O Papa Francisco continua a ser o pastor jesuíta nascido no bairro porteño das Flores que conhecemos como cardeal Bergoglio, talentoso jogador de cartas e fervoroso adepto do clube San Lorenzo. A humildade, o carisma e a proximidade às populações com que agora o vemos atuar a partir de Roma pautavam já a sua conduta em Buenos Aires.

Ao revistarmos o último quinquénio, observamos que, desafortunadamente, a sua atuação esteve muitas vezes em contra-ciclo com a disposição da comunidade internacional.

Enquanto o concerto das nações se deixou amarrotar, uma vez mais, pelos sofismas isolacionistas, no Vaticano, pelas mãos do Sumo Pontífice, a intervenção internacional recuperou um lugar cimeiro. Lembremo-nos do seu papel no reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, da visita que prestou à Colômbia para consolidar o processo de paz interno ou, ainda mais recentemente, dos apelos que dirigiu às autoridades venezuelanas.

O mesmo ocorreu no plano do diálogo inter-religioso. Quando muitos se ocupavam de encerrar fronteiras, de reavivar populismos e soberbas étnicas que julgávamos ultrapassados, Francisco promovia novos pontos de encontro entre as distintas expressões da fé. "Somos irmãos, temos o mesmo batismo", disse ao patriarca ortodoxo de Moscovo. A visita a Al-Azhar, a primeira de um Papa à principal instituição teológica do Islão sunita, a audiência concedida no Vaticano ao chefe de Estado turco e o encontro com monges budistas em Myanmar configuraram outros eminentes exemplos do seu genuíno ecumenismo.

Em muitas ocasiões, também ao nível do discurso o Papa esteve à frente do seu tempo. Ante o silêncio e a impunidade dos que violam o direito internacional, converteu-se num porta-voz da causa dos refugiados, criticando ao mesmo tempo, sem demora nem hesitação, o terrorismo e todas as formas de fanatismo religioso.

À lógica economicista que hoje domina a interlocução política, o Papa acrescentou argumentos humanitários. Recordo-me, por exemplo, da veemência com que se insurgiu contra a exclusão e a desigualdade sociais na exortação Evangelii Gaudium.

Por outro lado, em contraponto com os que ainda olham para as alterações climáticas como um capricho científico, o Pontífice elevou, através da sua encíclica Laudato Si, o lugar da ecologia na doutrina social da Igreja.

Merece igual menção, na área dos costumes, o reconhecimento de que a Igreja Católica deve um pedido de desculpas aos homossexuais e que a orientação sexual não constitui um critério para ser cristão.

Ora na defesa do apostolado dos leigos, ora na pregação dos valores da Pacem in Terris, o Papa argentino recuperou o espírito de abertura do Concílio Vaticano II. Ao dar voz aos que se sentem excluídos, ao representar causas globais, Francisco é hoje, mais do que o chefe da Igreja Católica, um líder com reconhecimento e autoridade universais.

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