Um olhar sobre a Albânia*

A propósito de uma viagem num projeto internacional e da constituição do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano, do qual fui co-fundador nesta ocasião, tive a oportunidade de conhecer o país que desde sempre habitou o imaginário dos portugueses.

De acordo com os etnologistas e estudiosos da linguística, arqueologia e antropologia, o povo albanês é a raça mais antiga do Sudeste da Europa, descendente dos antigos ilírios, um povo quase contemporâneo dos lusitanos (aprox. séc. IV a. C.). A língua albanesa é um idioma único, distinto do falado nos países da península Balcânica, com acréscimos de palavras do grego antigo, do latim, alguma admissão do turco, do eslavo, do italiano e palavras célticas esparsas.

Segundo as fontes históricas disponíveis, o termo "Ilírio / Ilíria" que significa a "terra dos livres", ocupava toda a parte oeste da península Balcânica. O Reino Ilírio era formado por várias tribos. O povo era social e hospitaleiro, conhecido pela sua ousadia e coragem na guerra, e dominava as línguas estrangeiras. Era constituído por pagãos que, todavia, tinham a peculiaridade de acreditarem na vida após a morte. Invadido sucessivamente pelos Impérios Romano e Bizantino que o ocuparam até ao séc. XIV, o reino da Ilíria começa, a partir do século IX, a ser invadido pelos povos eslavos que causam grandes destruições nos lugares por onde passam.

Na primeira metade do séc. XIV, o império otomano ocupou a Ilíria, dando assim início ao processo de conversão ao Islão que durou mais de cinco séculos. Os territórios ilírios conseguiram a sua liberdade apenas durante a liderança de Skanderbeg - nome dado pelos turcos ao mítico herói, cujo nome de origem era Gjergj (Jorge) Kastrioti - impedindo o avanço do império otomano na direção da Europa Central e Ocidental, protegendo assim o desenvolvimento económico, social, político e cultural destes países.

Após 25 anos de combate contra o império otomano, Skanderbeg morre em 1468. O seu desaparecimento deixou consequências graves na vida política do país mas, ao mesmo tempo, sustentou a consciência de uma cidadania e o sentido da luta pela unidade nacional, liberdade e independência. O estabelecimento do domínio otomano foi acompanhado de alterações profundas, não só na área política, social e económica, mas também na estrutura religiosa da população.

No respeitante à origem da palavra "Albânia", pronunciada na sua língua como "Shqipëria", acredita-se que ela seja derivada de "shqipe" ou "águia", a qual terá evoluído para "shqipria", que quer dizer "a terra da águia".

Em 28 de novembro de 1912, em Vlora, a Albânia, que apesar da governação do império otomano conservou intacta a identidade da sua nacionalidade, declarou a independência, que era uma premissa política fundamental para a organização da vida social e para um mais rápido desenvolvimento do país.

Durante a Primeira Guerra Mundial, a Albânia foi dividida pelas Grandes Potências Europeias (França, Inglaterra, Alemanha, Rússia, Austro-Hungria, Itália), deixando uma grande parte do território fora das suas fronteiras devido a intrigas e complots políticos dos países vizinhos, particularmente da ex-Jugoslávia. A Albânia é assim vítima dos conflitos que se vêm fazendo sentir na História dos Balcãs Ocidentais.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Albânia foi invadida pela Itália e Alemanha, tendo conseguido a sua liberdade em novembro de 1944. Depois deste ano, instala-se na Albânia o regime comunista, tendo o seu ditador Enver Hoxha, em 1967, declarado o Estado Ateu, "a primeira nação Ateísta do mundo" que se manteve até 1991. As religiões eram identificadas como importações estrangeiras para a cultura albanesa e foram totalmente proibidas. O regime destruiu qualquer templo religioso até lá construído e tirou ao povo albanês a liberdade de expressão e circulação.

Uma "nova era" na História da Albânia começa no ano de 1991, quando as dificuldades económicas impostas pelo isolamento e a manifestação de centenas de milhares de estudantes obrigaram Ramiz Alia, sucessor de Hoxha, a reabrir o país ao mundo, estabelecendo um sistema democrático multipartidário.

Apesar das profundas transformações, a Albânia continua a viver graves problemas de credibilidade política e de desenvolvimento sustentável. O país, com uma democracia jovem, evidencia grande dificuldade em se manter viável e esforça-se para atingir os critérios necessários para se juntar à União Europeia, sendo que geograficamente ele se situa menos "a leste" do que alguns outros países integrantes da União. A Albânia juntou-se à NATO em abril de 2009 e, nesse mesmo ano, apresentou a candidatura à União Europeia, assunto que está adiado até às novas eleições legislativas, em junho do próximo ano.

Atualmente, a corrupção, a falta de transparência eleitoral e o desemprego são os temas que mais urgentemente se encontram na ordem do dia na Albânia. Os albaneses estão a perder cada vez mais a sua confiança nas instituições nacionais, olhando para a União Europeia como a única esperança para trazer à Albânia maior segurança, prosperidade e estabilidade económica, liberdade e democracia, e uma dignidade que tanto procuraram ao longo da uma história que, como país independente, celebra uma primeira centúria na quarta-feira, dia 28 de novembro.

* Agradeço a Eva Ndrio de Carvalho a rigorosa e exaustiva recolha de informação que se encontra na base do presente artigo.

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