Um brinde à pomada francesa

É prudente pensar que a rodagem deste conto de pai e filho nas mais afamadas zonas vinhateiras francesas esteja tocado pelo vinho. Uma comédia com alto teor de álcool que em vez de atiçar o bafo ou provocar a ressaca tem uma pequena aragem positiva de fé humana (por isso, perfeito para o Natal). Como aqui ao lado o ator Vincent Lacoste conta, todos os dias a equipa de rodagem provava os vinhos de cada região. Estamos sob influência? Muito telegraficamente, o filme vê-se de um trago. De um certo modo, Saint Amour faz os possíveis para nunca ficar sóbrio, mesmo quando surge algo de novo no cinema de Gustave Kervern e Benoît Delépine: a sua reviravolta fofa (sim, as personagens têm todas loucura, mas desta vez há coração). E, segundo os poucos que cá têm visto o cinema destes realizadores (Louise-Michel, eExperiência de Quase-Morte, Aaltra), fofura não é a palavra que imaginamos para ele. O seu cinema é sempre rude, feio, radical, com humor bruto e surreal. Desta vez, temos um pai e um filho agricultores. Ambos saem de Paris, da feira bovina, e pedem a um motorista local (Vincent Lacoste) para seguir caminho e fazer um circuito de vinhos pelas regiões afamadas. Pelo caminho, o pai tenta animar o filho, que terá perdido a paixão pela criação bovina, e ambos encontram uma série de mulheres com as quais têm bizarros encontros sexuais. A grande novidade é que é tudo mais orgânico, sem a "aderecização" habitual.Saint Amour é o chamado "agrada-multidões", tendo provocado no Festival de Berlim as mais ruidosas gargalhadas da edição deste ano, sobretudo nas cenas que têm golpe de argumento: o filho do agricultor a querer provar que é um especialista em descrever os dez estados possíveis da embriaguez, é um mimo. Mas o mimo maior é Depardieu, de longe no seu melhor papel em muitos anos.

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