Sufjan no cinema

Bem curiosa esta coincidência da canção de Sufjan Stevens, Tonya Harding, surgir numa altura em que o filme I, Tonya, de Craig Gillespie, está na rota da temporada dos prémios. Coincidência ainda maior quando o músico assina também um punhado de canções de beleza lancinante para Chama-me pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino. A coincidência só não volta a acontecer na qualidade dos filmes. O filme do italiano é uma obra-prima de todo o tamanho, um dos grandes momentos do próximo ano cinematográfico, aconteça o que acontecer, enquanto I, Tonya é uma "chico-espertice" em forma de biografia sobre a patinadora artística white trash, uma espécie de conto sobre uma América ruinosa dos anos 1990 empolada por uma glorificação do kitsch. Vi o filme no Festival de Toronto e percebi de assentada que a estética de caricatura que tenta ser "engraçadinha" podia levar o filme para aquele ponto do hype infundado.

Para mal dos meus pecados, Craig Gillespie faz um retrato de uma comunidade desfavorecida e de uma família quebrada, a de Tonya, com uma banda sonora capaz de inundar o espectador com piroseiras como En Vogue, Cliff Richards e Dire Straits (ainda que haja o momento Violent Femmes). É um martelar continuado, ficamos cansados, desgastados. Até se pode dizer que Gillespie tem boas ideias narrativas, mas, na prática, não servem para nada. Tudo cai no mais seco dos conformismos. Há um certo cinema norte-americano demasiado fascinado pelos penteados e guarda-roupa "foleiros" dos anos 80 e 90. Diria que é um fascínio de saco roto. Quando chegar a Portugal em fevereiro só vai valer a pena falar das suas atrizes: a surpreendente Margott Robbie (desde O Lobo de Wall Street que está a construir um percurso bonito) e a hilariante Allison Janney. Não salvam o filme, mas vão ser nomeadas aos Óscares. Se a canção de Sufjan Stevens estivesse também incluída também não salvaria nada, mas minorava os efeitos...

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.