Sob o signo de Henri Langlois

Nestes tempos de grandes e incessantes proezas da imagem digital, é um refúgio para o olhar descobrir cinema ainda capaz de nos aproximar da verdade das coisas. Quer dizer, não no sentido básico da rugosidade física, mas de uma pura essência e beleza cinematográficas. O cineasta francês Philippe Garrel, de quem nos chega agora O Amante de Um Dia, não será a única figura de resistência no panorama, a praticar um cinema de tato e alma. Mas é especialmente através dele que a crença e vontade de Henri Langlois (1914-1977) se mantém viva e bem expressa em cada imagem de película a preto e branco dos seus filmes. Cinéfilo de primeira apanha, o lendário fundador da Cinemateca Francesa não admitia a hipótese da extinção dessa marca de nascimento da sétima arte. Dizia que era impossível o preto e branco desaparecer, porque era assim que o cinema tinha sido apresentado ao mundo pelos irmãos Lumière - a propósito, vale a pena lembrar o recente e fascinante documentário de Thierry Frémaux (agora em DVD), com uma boa amostra dos seus pequenos filmes, que nos coloca diante da suprema vitalidade dessas imagens inaugurais.

Por sua vez, Garrel, como amigo que era de Langlois, tem vindo a cumprir o seu desejo, tanto por gosto pessoal como pela maior liberdade que encontra em filmar a preto e branco, com baixo orçamento. Uma liberdade que permite ao seu cinema conservar a especificidade do imaginário, e da linguagem dos corpos que resulta dessa estética bicolor. Por isso, um filme como O Amante de Um Dia é um objeto tão característico da cinefilia, concebido na vigorosa consciência de quem ainda procura a melhor forma de enquadrar um rosto feminino. Como o próprio Philippe Garrel conta, rostos sem maquilhagem, na nudez harmoniosa que só a imagem a preto e branco permite.

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