Sob o signo de Henri Langlois

Nestes tempos de grandes e incessantes proezas da imagem digital, é um refúgio para o olhar descobrir cinema ainda capaz de nos aproximar da verdade das coisas. Quer dizer, não no sentido básico da rugosidade física, mas de uma pura essência e beleza cinematográficas. O cineasta francês Philippe Garrel, de quem nos chega agora O Amante de Um Dia, não será a única figura de resistência no panorama, a praticar um cinema de tato e alma. Mas é especialmente através dele que a crença e vontade de Henri Langlois (1914-1977) se mantém viva e bem expressa em cada imagem de película a preto e branco dos seus filmes. Cinéfilo de primeira apanha, o lendário fundador da Cinemateca Francesa não admitia a hipótese da extinção dessa marca de nascimento da sétima arte. Dizia que era impossível o preto e branco desaparecer, porque era assim que o cinema tinha sido apresentado ao mundo pelos irmãos Lumière - a propósito, vale a pena lembrar o recente e fascinante documentário de Thierry Frémaux (agora em DVD), com uma boa amostra dos seus pequenos filmes, que nos coloca diante da suprema vitalidade dessas imagens inaugurais.

Por sua vez, Garrel, como amigo que era de Langlois, tem vindo a cumprir o seu desejo, tanto por gosto pessoal como pela maior liberdade que encontra em filmar a preto e branco, com baixo orçamento. Uma liberdade que permite ao seu cinema conservar a especificidade do imaginário, e da linguagem dos corpos que resulta dessa estética bicolor. Por isso, um filme como O Amante de Um Dia é um objeto tão característico da cinefilia, concebido na vigorosa consciência de quem ainda procura a melhor forma de enquadrar um rosto feminino. Como o próprio Philippe Garrel conta, rostos sem maquilhagem, na nudez harmoniosa que só a imagem a preto e branco permite.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.