Sinto um grande alívio

Sinto um grande alívio. Fica salvaguardada a dignidade do Estado, que não pode premiar quem não cumpre o seu dever. E fica resguardado o respeito devido aos que cumpriram a sua missão, mantendo-se no seu posto e defendendo, com risco da própria vida, os timorenses que trabalharam para Portugal e que Pereira Gomes esteve prestes a abandonar à sua sorte. Vivi intensamente esses dias. O meu filho Francisco estava lá. Mantive um contacto permanente com Guterres, Gama e Sampaio, também a pedido deles. Pereira Gomes não pode dizer na minha cara que tem a consciência tranquila. Ele sabe que eu sei que telefonava constantemente a Guterres a pedir para o tirarem de lá. Ele sabe que eu sei que ofereceu o meu filho como voluntário para ele se pôr ao fresco. O meu filho aceitou, por sentido de dever, o repto que lhe foi lançado pelo governo. Foi o bom senso de Jaime Gama que evitou a vergonha do chefe da missão se vir embora, entregando às feras o diplomata mais novo. O ministro Santos Silva também sabe que eu sei que ele sabia que Pereira Gomes era uma péssima escolha.

Não fiz declarações públicas até agora. Mas comuniquei com lealdade a António Costa a minha discordância total com uma escolha a todos os títulos inadequada. Disse-lhe que, para saber a verdade, não bastava ouvir embaixadores e oficiais de polícia que não estiveram lá na recta final. Era preciso ouvir os que estiverem até ao fim, e sobretudo os que aceitaram as orientações do governo e cumpriram com honra o seu dever: como é o caso dos três GOE, dos quatros jornalistas, do porta-voz da missão, do médico, e do meu filho. Só assim se poderia contrariar interesses corporativos e empenhos particulares. Confesso que desde a fundação da democracia nada me indignou e incomodou tanto como esta nomeação.

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