Saúde e a história que não será contada

Se o leitor tivesse de optar entre gastar um milhão de euros para salvar 200 pessoas agora ou gastar um milhão de euros para salvar 600 pessoas daqui a 20 anos, que escolha faria?

A resposta parece óbvia, mas poucos são os dirigentes que escolheriam a segunda opção e poucos são os cidadãos que a exigiriam. Se até hoje a escolha era lógica, cada vez mais ela se torna indispensável. Com o envelhecimento da população, o aumento das doenças não comunicáveis (por exemplo, problemas cardiovasculares, doenças neurodegenerativas, diabetes) e das perturbações mentais, o alvo não é exclusivamente na cura, mas o de adiar ou evitar destas condições e a redução da incapacidade. Em resposta, os sistemas de saúde modernos começam a gastar mais dinheiro na prevenção e intervenção precoce.

Para isso acontecer, tem de se aumentar a aposta no futuro. Mas tal esbarra com uma barreira. Apesar das tais 400 pessoas que hipoteticamente não sobreviverão, nós somos muito mais sensíveis à não resposta a um doente oncológico que morre numa lista de espera ou a uma pessoa que se suicida depois de ter alta numa urgência, por critérios mais administrativos do que clínicos. Somos muito mais sensíveis a histórias de pessoas que sofrem hoje do que a histórias de pessoas que ainda não sofrem. Pela nossa sensibilidade a narrativas concretas importa contar a história dessas pessoas.

Quando há 20 anos um decisor alocou os recursos à sua disposição, deparou-se com dilemas semelhantes ao que encabeça este artigo. E a sua resposta terá sido no sentido de responder às necessidades exigidas pelos cidadãos da altura. Seguindo o nosso exercício inicial, hoje mais 400 pessoas vão morrer por causa dessas opções. O doente oncológico que recebeu o diagnóstico tardio não foi orientado para práticas de autocuidado. A pessoa que se suicida à saída da urgência não foi encaminhada para psicologia quando a sua depressão grave ainda era apenas um problema de ajustamento escolar. O homem que morre precocemente de ataque cardíaco morre sem nunca ter beneficiado de uma intervenção para reduzir o consumo de álcool que contribuiu para o ataque.

Agora, a verdadeira questão que resta é se queremos contar esta história daqui a 20 anos ou se queremos modernizar os objetivos do nosso Serviço Nacional de Saúde.

Presidente do Conselho de especialidade de psicologia clínica e da saúde

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.