Retrato do falhado feliz

Começar o ano com o novo filme de James Franco? Em circunstâncias normais, e sem menosprezar inteiramente a sua diligência como realizador, não seria um bom augúrio. Mas por uma vez, rejubilemos, pois é caso para dizer que este californiano apaixonado por Faulkner finalmente acertou no material cinematográfico! Em todo o caso, não é nada que se relacione com grande literatura Digamos que a maior nobreza de Um Desastre de Artista nasce do mais intrépido desejo de celebrar o cinema. O amor ao cinema. Mesmo, ou sobretudo, se esse enaltecimento não corresponde a uma obra distinguida pelas suas virtudes. Trata-se afinal de uma crónica da rodagem de The Room (2003) - o cult movie colocado no pedestal como o "melhor pior filme de sempre" - sob o signo do mistério do seu realizador, produtor e ator, Tommy Wiseau. Franco também realiza, produz e protagoniza o seu filme, encontrando nas estranhíssimas imperfeições de Wiseau uma porta aberta para o terno retrato de um feliz falhado. A verdade é que, aproveitando a comicidade singular que envolve a personagem real, Franco não pegou nesta história de uma amizade improvável (entre Wiseau e o ator Greg Sestero), que resultou num filme, para sacar dela a caricatura. O que se vê aqui é o genuíno apreço pela resiliência de um homem que estava confiante na qualidade da sua obra, iludido com a ideia de ser talentoso E para todos os efeitos, outras formas de talento se revelaram pelo caminho.

Com o tom certo de diversão e aprumo dramático, Um Desastre de Artista é um digno sucessor do filme sobre o "pior realizador de sempre", Ed Wood (1994), de Tim Burton. É bom ver cinema que homenageia assim a dimensão afetiva da arte. No fim de contas, o que moveu Tommy Wiseau e Edward D. Wood Jr. senão a crença profunda? É isso que nos (co)move também.

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Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

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Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.