Razão de ler

Cada livro de Alberto Manguel vale como uma declaração de amor à literatura e aos livros, mas também como uma confissão de impotência para viver - e sentir e raciocinar - longe dos seus "objetos" de eleição. O pressuposto deste novo mergulho no mundo (mágico, sedutor e só aparentemente opressor, embora reconhecidamente viciante) dos livros brota de uma ação que a muitos pode parecer trivial, quase banal: ao mudar de casa, e de país, Manguel vê-se na necessidade de encaixotar os seus 35 mil volumes, desfazendo de forma metódica uma harmonia que, imagina-se, levou anos a concretizar. Nessa ocasião, o autor e leitor dá conta das múltiplas privações que envolvem essa iniciativa forçada: por um lado, perde os seus pontos de referência (quase pontos cardeais numa bússola do conhecimento e do prazer) que lhe permitiam localizar rápida e infalivelmente os parágrafos ou as passagens a que pretenderia recorrer. Por outro, entrava num período de angústia e numa sensação de perda - mesmo que se verificasse uma qualquer hipótese de reconstrução, esta nunca poderia assumir-se como uma reconstituição, uma vez que as condições de arrumação seriam diversas, as lógicas para o ordenamento estariam alteradas, aquilo que era "ponto assente" estaria, a partir daí, condenado à mudança. Em síntese, por mais esperançoso que Manguel tente mostrar-se, vai ressaltando a ideia de uma despedida, irreversível, inexorável.

Quem se deixe enredar na teia doce e vibrante que os livros representam e tenha mudado de casa perceberá a inquietação de Alberto Manguel, bem patente em Embalando a Minha Biblioteca. A própria ideia de biblioteca estará sempre mais chegada à estabilidade do que à transformação - acrescenta-se, sim, mas dispensa alterações de fundo à dinâmica. Até porque para quem, como este leitor quase obsessivo, se recuse a abdicar dos livros "bons" (porque fazem sempre falta, que pode revelar-se a qualquer momento) mas também a desistir dos livros "maus" (nunca fiando), esse recomeço pode constituir uma irrecuperável perda de tempo - até para prosseguir a ciclópica tarefa de ler tudo o que ainda se sente como indispensável, recomendável ou apenas apetecível. No meu caso particular, sei como me afetaria perder o contacto com muitos livros; posso não os abordar durante anos, mas conforta-me saber que estão por ali, pacientes e disponíveis, à minha espera, para a ocasião precisa em que a eles decida - ou seja levado a - recorrer.

O resto fica entregue à infinita capacidade tecedeira de Alberto Manguel - quem leu Uma História da Leitura, Uma História da Curiosidade ou A Biblioteca à Noite, saberá a que me refiro. Um excerto revela-se suficiente: "Os livros na minha biblioteca prometiam-me conforto e também a possibilidade de conversas enriquecedoras. Concediam-me, sempre que pegava num, a memória de amizade que não requeria apresentações, nenhuma delicadeza convencional, nenhuma emoção falsa ou dissimulada. Eu sabia que, naquele espaço familiar entre capas, uma noite tiraria um volume de Samuel Johnson ou de Voltaire que nunca tinha aberto e que descobriria uma frase que estava à minha espera há séculos. (...) Os livros sempre falaram comigo e me ensinaram muitas coisas, muito antes de essas coisas se manifestarem materialmente na minha vida, e os volumes físicos foram para mim algo muito próximo de criaturas de carne e osso que usufruem de pensão completa em minha casa." Tudo dito - Manguel é mesmo um dos eleitos que faz coincidir "razão de ser" com "razão de ler", como deve ser.

Embalando a Minha Biblioteca
Alberto Manguel
Trad.: Rita Almeida Simões
Ed. Tinta-da-China
PVP: 13,41

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