R2-D2 e o João Semana

Cristina é incansável e dedicada.

Trabalha em casa do Sr. Mário, octogenário de 90 anos, viúvo, a viver sozinho há sete anos. O Sr. Mário tem várias patologias crónicas e, por isso, precisa de tomar medicação seguindo um indecifrável mapa diário que nunca entendeu muito bem. Diariamente, mesmo em tempo frio ou chuvoso, tinha de se deslocar à farmácia ou ao centro de saúde para medir a sua tensão arterial ou fazer análises. Agora é a Cristina que trata de tudo. É sua assistente pessoal, trata de todos os seus cuidados de saúde. Nem se esquece de lhe recordar as contas da luz por pagar ou os aniversários para lembrar. Nunca lhe falhou, nunca faltou ao trabalho, nunca tirou um tempo para descansar, nem sequer para uma pausa. Também nunca se queixou de nada. Nunca dormiu ou sentiu a necessidade de experimentar a única casa de banho do apartamento.

Cristina é um nome imaginário de um Carebot (robot pessoal) criado pela Gecko Systems há, pelo menos, uma década. Foi especialmente concebida como assistente pessoal para pessoas idosas que vivem sós e que têm necessidades de cuidados de saúde, tais como tomar regularmente medicação ou monitorizar parâmetros fisiológicos e biológicos. O Carebot está ligado a uma central que desencadeia uma intervenção médica (humana) especializada, nos casos em que o estado de saúde do idoso se deteriore. As primeiras gerações do Carebot têm evidentes semelhanças com o R2-D2 da saga da Guerra das Estrelas que todos nós acarinhámos. R2-D2 foi criado para defender a paz intergaláctica, Cristina foi criada para satisfazer as necessidades do seu proprietário humano.

O futuro está presente nas nossas vidas. Não é preciso esperar pelo amanhã para o descobrir. A robotização está presente, em formas mais rudimentares ou menos percetíveis, na rotina das nossas vidas. Há poucas áreas da atividade humana em que a robótica não esteja omnipresente.

Na área da saúde, o avanço tecnológico com aplicações na robótica tem dado passos extraordinários. Mas, se por um lado tem contribuído para o avanço dos cuidados de saúde, nos diagnósticos, nos cuidados, nos tratamentos; por outro lado coloca-nos perante muitas incertezas. Desde logo, levantam-se questões éticas complexas e infindáveis. Qual o lugar no espaço familiar reservado à Cristina? Que grau de autonomia podem ter para as suas ações e que responsabilização lhe pode ser atribuída pelos seus erros? Até onde poderá ir o desenvolvimento da sua superinteligência e da sua pseudo-emotividade? E, sobretudo, que consequências terá a perda gradual do controlo humano destas máquinas?

Mas a maior questão civilizacional que levanta a aplicação da evolução tecnológica na saúde está relacionada com a desumanização dos cuidados. Estes avanços melhoraram indiscutivelmente as nossas vidas. Mas nunca substituirão o contacto humano, o olhar e o toque do médico, o reconforto do enfermeiro, a dedicação do auxiliar ou o afeto de um amigo.

Não, R2-D2 nunca substituirá o João Semana.

Presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos

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