Querido Eduardo Mãos de Tesoura

O que é que o novo Piratas das Caraíbas pode e deve trazer, neste momento, à carreira de Johnny Depp? A pergunta tem de ser feita. Deriva, em parte, da cruel porosidade entre a vida privada (na expressão das polémicas pessoais) e o cinema, que, em consequência, deturpa a essencial relação do espectador com um filme. Convém lembrar que Jack Sparrow foi a primeira personagem a colocar Depp na lista dos nomeados para um Óscar, em 2004, e é aquela que, apesar do esmorecimento da saga, permanece luminosa. Ou melhor, num luminoso cansaço. É assim que o ator de Eduardo Mãos de Tesoura se apresenta agora, na batalha pela recuperação do sucesso que vem a fugir-lhe por entre os dedos de lâmina nos últimos quatro anos, com os sucessivos desastres de bilheteira que foram O Mascarilha (2013), Transcendence: A Nova Inteligência (2014) e O Excêntrico Mortdecai (2015). Nem Black Mass - Jogo Sujo, filme de gangsters que o mostrou num outro registo de excentricidade, com fortes hipóteses de chamar as atenções da Academia, lhe recuperou o estatuto. Mais recentemente, teve o seu estimado papel de chapeleiro em Alice do Outro Lado do Espelho, mas não o protagonismo de outrora. Dito de um modo muito simples, o que dantes levava alguém a ver um filme com Johnny Depp no elenco era o próprio Johnny Depp. Um ADN que sugeria previamente o tom desse filme. Por estes dias, Piratas das Caraíbas: Homens Mortos Não Contam Histórias tenta recuperar, a medo (pelo menos, em termos de marketing), o valor que lhe é devido, mas as impurezas mediáticas não vão facilitar o processo. Com uma garrafa de rum na mão e outra no peito, que contém a miniatura do navio Pérola Negra, Sparrow/Depp tem aqui a oportunidade de reencontrar algumas moedas do tesouro que foi o seu percurso, e deve continuar a ser.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.