PyeongChang 2018: as Olimpíadas da Paz

O presidente da Assembleia Nacional da República da Coreia, Chung Sye-kyun, fez uma visita oficial a Portugal entre 18 e 20 de janeiro, a convite do presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues. Foi a terceira visita de um presidente da Assembleia Nacional da Coreia desde o estabelecimento de relações diplomáticas em 1961.

A grande distância física que separa os dois países, que ficam em extremos opostos da enorme Eurásia, não é impeditivo para a existência de muitos traços comuns entre os dois povos. Aliás, o primeiro ocidental a pisar solo coreano foi um mercador português chamado João Mendes, que chegou a Tongyeong em 1604 (existe nesta cidade um memorial dedicado a Portugal, que foi inaugurado em 2004). Na cena internacional também tivemos oportunidade de constatar a empatia entre a Coreia e Portugal na transição suave de Ban Ki-moon para António Guterres como secretário-geral da ONU. Durante a visita a Portugal, Chung Sye-kyun reuniu-se não só com o seu homólogo mas também com o Presidente da República e com o primeiro-ministro. Foram encontros muito úteis e proveitosos, em que discutiram tantos assuntos bilaterais como multilaterais.

Um assunto que foi falado em todos os encontros do presidente da Assembleia Nacional da República da Coreia foi a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno em PyeongChang. Marcelo Rebelo de Sousa, Ferro Rodrigues e António Costa foram unânimes nos seus votos de muito sucesso para estes Jogos Olímpicos. Felicitaram em particular a participação da Coreia do Norte, que concordou desfilar em conjunto na cerimónia de abertura e formar uma equipa única de hóquei no gelo feminino. Portugal desejou que este atenuar de tensões na península coreana vá para além dos Jogos Olímpicos. Afinal, esta é uma excelente oportunidade para tentar estabelecer uma paz mais permanente e pode, eventualmente, ser um passo no caminho para a desnuclearização da Coreia do Norte.

Como é do conhecimento geral, desde 2006 a Coreia do Norte realizou seis ensaios nucleares e nos últimos 5 anos fez cerca de 80 lançamentos de mísseis, apesar das severas críticas e condenações da comunidade internacional. O programa nuclear norte-coreano é, de facto, uma ameaça grave para a segurança e paz mundial. A participação da Coreia do Norte nos Jogos Olímpicos de PyeongChang é resultado da pressão da comunidade internacional, das várias sanções que foram impostas ao regime norte-coreano e da aprovação unânime da resolução Ekecheiria na Assembleia Geral da ONU, em novembro passado. Ekecheiria significa trégua olímpica, ou seja, a paralisação de todos os conflitos sete dias antes da cerimónia de abertura e perdura até sete dias depois da cerimónia de encerramento dos Jogos Paralímpicos, num total de 52 dias. Não posso deixar de ter esperança de que o canal de comunicação entre as duas Coreias, que foi recentemente reaberto, se mantenha e leve à desnuclearização e a um caminho para a paz.

Por estes dias, a cidade de PyeongChang faz os últimos preparativos para receber os Jogos Olímpicos de Inverno, de 9 a 25 de fevereiro. Vai ser o maior evento realizado até hoje e a maior celebração da paz na história dos Jogos Olímpicos de Inverno. Vamos receber cerca de 2900 dos melhores atletas do gelo e da neve de 92 países, incluindo de Portugal. Estes atletas vão disputar 102 medalhas de ouro em 15 modalidades.

Pela primeira vez na realização dos Jogos Olímpicos vão ser aplicadas tecnologias como a realidade virtual, a realidade aumentada e a internet das coisas (IoT). Os visitantes vão ser orientados por robôs, que servem de guias e intérpretes durante toda a sua estada e vão ter ao seu dispor comunicações em 5G. A Coreia quer alcançar todos os cinco compromissos anunciados à comunidade internacional quando foi eleita anfitriã dos Jogos Olímpicos de Inverno em 2011: realizar os jogos olímpicos da paz, do desenvolvimento económico, da cultura, das TIC e do ambiente. Estamos a fazer todos os esforços para corresponder às grandes expectativas criadas em torno de PyeongChang 2018, depois de termos organizado com tanto sucesso os Jogos Olímpicos de Verão de Seul em 1988, o Mundial de Futebol 2002 Coreia-Japão e o Campeonato Mundial de Atletismo de Daegu em 2011.

Desde que fui nomeado embaixador da República da Coreia em Portugal que sinto Portugal como a minha segunda casa. Há algum tempo escrevi um artigo num jornal coreano em que apresentei Portugal como um paraíso. Descrevi o quão feliz me sentia por ver Portugal com fortes sinais de recuperação económica e afirmei que esta nova dinâmica trouxe consigo um desejo de maior aproximação à República da Coreia. Falei também de Portugal como o país dos cinco efes: Futebol, Fátima, Fado, Food e Férias (seja nas maravilhosas praias ou nas cidades). Sei que nos últimos anos o número de turistas coreanos a visitar Portugal aumentou cerca de 20% e que no ano passado atingimos os 120 mil visitantes. Portugal é referido com alguma frequência nos programas de entretenimento mais populares na Coreia, o que faz que o interesse dos turistas, empresários e investidores coreanos aumente. Assim, temos muitos coreanos a querer conhecer Portugal, um país simpático e seguro, onde se encontram jovens com grande capacidade e talento, prontos a trabalhar para construir um futuro próspero para o seu país.

Portugal e Coreia são países de pequena dimensão que foram capazes de afirmar a sua individualidade e de superar os vários obstáculos que foram encontrando ao longo da sua história. Este passado partilhado é uma sólida base para no presente trabalharmos em conjunto nos nossos objetivos comuns. Por isso sinto-me feliz por viver aqui e por fazer parte deste futuro melhor que estamos a construir em conjunto.

Park Chul-min é embaixador da Coreia em Portugal

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