Porquê o Egipto?

O presidente egípcio, Abdul Fatah al-Sisi, foi recentemente recebido em Portugal. Coisa normal, dir-se-ia, mas houve protestos e, como tudo na vida, nada é por acaso. Há sete anos que trabalho sobre e com o Egipto no Parlamento Europeu. Sete anos numa montanha-russa.

Para se perceber os protestos é preciso ir atrás. O Egipto é governado desde 1952 por militares, com uma pequena ressalva à qual já regressarei. É esta a mais forte instituição do país e foram também os militares que sequestraram a revolução de 25 de janeiro de 2011 para voltarem ao poder. Estive nas ruas do Cairo durante a revolução. Aquela esperança e aquela alegria toda vividas nesses dias de praça e ruas a abarrotar de gente não fazem desaparecer o papel determinante que teve o exército na queda do ditador Hosni Mubarak. Tão determinante que, em novembro do mesmo ano, o povo teve de sair uma segunda vez à rua para pedir que o poder lhe fosse devolvido. Mas não foi. Conseguiu-se a realização de eleições democráticas em Dezembro desse mesmo ano. E pelo meio? E durante as revoltas populares? Pelo meio e durante houve mortes, tortura, perseguição, houve julgamentos militares a civis. O Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF), que conduzia os destinos do país, a nada disto se opôs. Al-Sisi integrava o SCAF numa posição de relevo.

Nas eleições de Dezembro de 2012 ganhou Morsi, da Irmandade Muçulmana, com uns escassos 52% à segunda volta. O inesperado apoio da classe média urbana deu-lhe essa vitória. O apoio de uma população que preferia um presidente islâmico democraticamente eleito, como Morsi, a uma dita República Militar que já conheciam antes e continuaram a provar após a revolução. Foi essa mesma classe média urbana que viria a retirar apoio a Morsi quando se viu confrontada com recuos nos direitos civis e nas questões sociais, com uma agenda profundamente conservadora e uma Constituição feita à medida. O presidente do diálogo excluiu muitos e não dialogou tanto assim. O povo egípcio saiu então uma terceira vez à rua, em Junho de 2013, desta feita para protestar contra Morsi. Nessa altura, Al-Sisi era já o chefe máximo do Exército e foi na sequência da revolta de Junho de 2013 que ele próprio liderou o golpe de Estado de Julho do mesmo ano.

Para os países ocidentais estava feita a escolha sem grandes hesitações. Nada no mundo é a preto e branco e aqui também não, mas as intenções percebem-se e as declarações não se fizeram esperar.

Morsi não desiludiu apenas parte do povo egípcio, desiludiu também alguns países ocidentais: não foi tão amigo de Israel como era tradição no Egipto, procurou defender Gaza, aproximou-se da China e do Irão e, para que se perceba mesmo que as leituras maniqueístas não nos levam a lado nenhum, obteve o seu maior aliado financeiro no Qatar. Não foi por acaso que logo depois do golpe militar que destituiu Morsi, Tony Blair escreveu um artigo no The Guardian, intitulado "A democracia por si só não significa um governo efectivo", em que defendia a tese da necessidade de compromisso com o novo "poder de facto" existente no Egipto e ajudar o novo governo às mudanças necessárias, com ênfase para as económicas.

Al-Sisi conduziu os destinos do país desde o golpe e só viria a ser eleito em Maio de 2014. A Irmandade Muçulmana foi ilegalizada, mais de mil pessoas ligadas ou próximas da Irmandade Muçulmana morreram ou ficaram gravemente feridas durante o golpe e os restantes membros do partido ficaram proibidos de participar em actividades políticas. Nesses tempos, no total, mais de 16 mil activistas foram detidos. Nas eleições de Maio de 2014, Al-Sisi foi eleito com 93% dos votos, mas praticamente não teve concorrência e apenas 28% dos eleitores participaram na eleição. A Irmandade Muçulmana já não podia concorrer e muitos partidos decidiram boicotar as eleições. As manifestações desapareceram do mapa do país, muitos activistas continuam presos e outros tantos emigraram, muitas organizações não governamentais queixam-se das leis que limitam a sua acção. A nova Constituição, referendada em Janeiro de 2014, confirmou muitas destas coisas e reforçou os poderes do presidente eleito.

Mais uma vez nada é a preto e branco, o novo presidente egípcio retomou relações com Israel, mas a partir de 2016 ofereceu-se para voltar a ter o papel de mediador entre Israel e Palestina. Os maiores financiadores externos a partir de 2013 passaram a ser a Arábia Saudita e os Emirados, mas foi sol de pouca dura. A queda no valor do petróleo fez cair a ajuda e o muito recente reconhecimento da justiça egípcia de que, afinal, as ilhas de Tiran e Sanafir, situadas no mar Vermelho, são egípcias fez tremer as relações com a Arábia Saudita. Militarmente o Egipto de Al-Sisi optou por não depender apenas dos Estados Unidos como fornecedor e acabou por assinar acordos com a França e com a Rússia. A ameaça terrorista no Sinai, por um lado, e na fronteira com a Líbia, por outro, levou o presidente a reaproximar-se da Síria, ao mesmo tempo que reforçou a aliança com o general Haftar, herdeiro de Kadhafi.

A par de tudo isto, é no Egipto que se encontra a mais firme posição da região contra os delírios de Erdogan e a da "ofensiva" regional turca.

Serão estes sinais de que o Egipto quer recuperar o papel temporariamente perdido de "estabilizador" da região (seja lá o que isso for)? É isso que alguns países ocidentais querem ver no Egipto. Isso e boas oportunidades de investimento.

A situação económica desastrosa, a inflação a subir em flecha, o desemprego elevado, o turismo que caiu a pique nestes anos turbulentos, o "fechar de torneiras" dos países do Golfo e a necessidade de recorrer ao FMI colocam o Egipto numa situação de ter de encontrar parceiros comerciais à força. E querem a aprovação da União Europeia à força. A mesma União Europeia cujo Parlamento Europeu aprovou 14 resoluções críticas do Egipto em cinco anos. O Egipto precisa desse reconhecimento, o presidente português abriu-lhe a porta.

E os direitos humanos? Nos dois dias que por cá esteve não se ouviu falar muito deles... Foi esse silêncio ruidoso que os que protestaram não quiseram calar. E bem, diria eu. Aos amigos diz-se tudo, aos que se quer como amigos também, por maioria de razão.

Este artigo de opinião foi proposto ao DN pela eurodeputada do Bloco de Esquerda.

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