Parar para pensar e depois continuar

Foi na segunda metade dos anos 70 e eu era aluno no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. A Revolução do 25 de Abril tinha acabado de acontecer e o liceu por esses anos era mais um sítio de agitação política do que um local onde havia aulas e estudo.

Mas em 1975-76 eu tinha 13 ou 14 anos e o que eu mais gostava era de jogar futebol com os amigos. Aproveitava todo o tempo livre, nos intervalos das aulas e sobretudo quando não havia aulas, porque os professores não tinham sido colocados, tinham sido substituídos, ou saneados ou o que quer que fosse. Ou simplesmente porque as aulas tinham sido interrompidas para uma muito importante e urgente sessão de esclarecimento ou comício em frente à cantina sobre a situação política e os acontecimentos gravíssimos que se estavam a passar no país e exigiam a mobilização de todos.

Para nós, alunos mais novos, era não só muito importante e urgente como muito bom e mesmo ótimo, porque acabávamos sempre a jogar futebol enquanto os colegas mais velhos tratavam do destino do país.

Por vezes, havia sessões de pancadaria, sobretudo entre militantes do MRPP e do PCP que, ao que parecia, partilhavam ideias diferentes sobre o futuro do país. Nessas alturas, era habitual haver batalha campal e arremesso de cadeiras e pedras e nós tínhamos de interromper o jogo de futebol, saltar o muro e fugir pelo Cemitério dos Ingleses para a rua.

Mas no dia seguinte, logo de manhã, ao abrir do portão da escola, lá estávamos, prontos para o futebol e para uma ou outra aula que pudesse acabar por se confirmar.

Os dias, pequenos charcos, sucediam-se mais pedrada menos pedrada, mais bola menos bola, como citações despropositadas de poemas em crónica de jornal.

Num desses dias, lembro-me claramente, o meu amigo Rui, um dos mais inteligentes amigos que eu tinha, veio ter comigo e disse-me:

- "Passas o dia a jogar à bola. Sabes o que se está a passar? Não participas em nada, não te interessas. Um dia destes vais votar... Como é que vais votar, em quem?"

E apontando para o livro que tinha debaixo do braço:

- "Já leste isto?"

O livro era O Capital, de Karl Marx. Claro que eu sabia o que era. Estávamos em 76. Mas, de facto, não só não o tinha lido como nem sequer o tinha folheado.

- "Ainda não li."

E ele:

- "Não tens consciência política. Depois não te admires que o mundo esteja como está."

E ali me deixou, suado, com a bola na mão, os outros à espera de que o jogo continuasse e eu a pensar:

- "Ele tem razão."

Não posso garantir que tenham sido estas as frases, mas estas seriam frases que eu poderia escolher se, quem sabe, mais tarde contasse esta história.

Fui ler O Capital.

O meu tio Mário era comunista. Devia ter e emprestava-me. Tinha e emprestou.

Estive vários dias às voltas com o livro a ver se me concentrava. O mesmo tinha acontecido uns anos antes com a Bíblia, nos tempos do catecismo.

Não foi fácil. Percebi, numa espécie de ironia avant la lettre, que O Capital ia dar muito trabalho. Para dificultar mais, na estante, mesmo ali ao lado, estavam as bandas desenhadas e os livros de aventuras, o escapismo. E lá fora a alienação do futebol.

Isto durou uns dias, uma eternidade. Bastante menos do que o catecismo e a Bíblia, é certo. Mas dessa vez fui obrigado, não tive escolha.

Com o Marx, ao fim de uma semana, decidi: "Isto ainda não é para mim. Tenho tempo."

Curiosamente, ter deixado a leitura da Bíblia não me fez sentir culpa nenhuma, ter deixado O Capital nem sequer a meio, durante um tempo fez-me sentir culpado.

O que estava em causa não era aquele livro em particular. Foi o que aquele momento representou para mim. Porventura, a primeira vez em que tive consciência de que tinha uma responsabilidade política no mundo em que estava a viver. Seria ainda, nessa idade, uma consciência prematura dessa responsabilidade, mas agora, à distância, percebo que foi um momento de perda de inocência.

Ao longo da vida todos temos estes momentos, pequenas epifanias do quotidiano, deflagradas por um inesperado qualquer

Ao longo da vida todos temos estes momentos, pequenas epifanias do quotidiano, deflagradas por um inesperado qualquer. Pode ser um pensamento, uma ideia, uma clarividência súbita, um eureka; causado por um documentário que vemos, uma reportagem, um filme; uma simples frase de um talkshow da tarde ou uma frase que alguém nos diz por acaso; uma conversa com um amigo no pátio do liceu.

Podem ter que ver com a ameaça ambiental, a desigualdade, a injustiça, a dor dos outros. Podem dar-nos angústia, mal-estar, preocupação pelo mundo. Podem fazer-nos perguntar como podemos ser felizes depois de sabermos o que se está a passar. Podem levar-nos a agir ou a militar numa causa, a procurar mudar o que está mal.

Ou, pelo contrário, pode ser um verso, uma música, um fim de tarde, um saco de papel a esvoaçar ao vento, uma fotografia, alguém que entra numa sala e o mundo para, num momento de beleza, paixão, suspensão...

E depois tudo continua. Mesmo que seja impossível que as coisas voltem a ser as mesmas depois desse momento. Mesmo que seja impossível continuar. Tudo continua.

A vida é um rali, cheio de ziguezagues e solavancos, em que por vezes chocamos contra estes momentos definidores. Os que nos suspendem numa incredulidade mágica e os que nos atiram contra uma realidade trágica.

Com o tempo ou a distância todos podem ficar quase cómicos.

Nunca mais revi o meu amigo Rui. Gostava de o voltar a ver para lhe dizer que fiquei a pensar no que ele me disse. Que acabei por ler O Capital. Mais ou menos (li uma versão que saiu em banda desenhada).

Gostava de lhe dizer que foi importante para mim ele ter-me dito aquilo. Mais do que tudo, gostava de o desafiar para voltarmos a dar uns toques na bola.

(Os Dias, Pequenos Charcos é o título de um livro de poemas de Joaquim Manuel Magalhães)

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