Paralelo ou contraponto

Sempre admirei aqueles que conseguem, "através" de um quadro, a partir de uma pintura, observar e registar aquilo que não é óbvio para o comum dos mortais, por mais prolongado e atento que seja o olhar que dedicam ao objeto "em estudo". Admiro ainda mais aqueles que, mais do que explicarem-nos as técnicas, decifrarem-nos as cores, identificarem-nos as escolas, localizarem-nos uma época ou circunscreverem-nos uma geografia, chegam ao ponto de nos permitir relacionar aquilo que vemos com o mais que vamos sabendo, com tudo o que vamos sentindo, mas não conseguimos sistematizar. Se o génio está necessariamente em quem pinta, o talento também não é avaro naqueles - que desaguando na crítica, recorrendo à história, mergulhando até nas biografias - que nos vão suave mas assertivamente conduzindo (nunca empurrando, que tal é a negação do livre arbítrio que tendemos a associar à arte) para um espectro muito mais largo, e por isso mais compensador, do conhecimento. Tentá-lo diante de um filme, de uma canção (ou de um disco), de um livro, nem sempre é fácil - a partir de uma imagem pintada, é uma tarefa que me suscita muitas vezes um sentimento de gratidão, porque me sinto amparado nas minhas (enormes) limitações.

María Gainza, cidadã argentina com que agora contactamos na sua primeira incursão escrita pela ficção, moveu-se durante muitos anos no circuito da crítica de arte, não descurando o ensino (a futuros críticos e a artistas), a História da Arte (do seu país), a organização de coleções e exposições. Fica justificado, desde logo, o recurso a um estratagema que ajuda a agigantar O Nervo Ótico: em cada capítulo, construído com um traço de evidência autobiográfica, ganha lugar um pintor, abordado em simultâneo por episódios da respetiva vida e pela "impressão digital" que legou ao mundo da pintura. Pode ser um momento insólito, aparentemente avulso, ou uma ocasião "fundadora", base de trabalho e de perfil - a escritora consegue sempre, nos múltiplos casos, fazê-lo brotar com naturalidade, por paralelo ou por contraponto. Nunca surge de forma forçada ou com contornos de exibicionismo académico, pelo contrário: se está em causa uma viagem até à costa argentina, uma excursão juvenil a caminho da prática do surf, torna-se natural que acabe a falar-nos de Gustave Courbet, pintor francês oitocentista, cujas abordagens ao mar lhe deixam uma impressão perene. Se relata uma amizade de muitos anos com uma mulher que ensinava japonês, legitima a abordagem aos "desejos nipónicos" de Henri de Toulouse-Lautrec, que nunca chegaria a concretizar essa viagem de sonho.

A propósito deste livro já foi devidamente salientado o seu cariz multidisciplinar: numa das notas da badana, lá vêm referidas "autobiografia, crónica social, crítica de arte, diário íntimo, aguarela de Buenos Aires, guia de museu". Isto sem que nenhum dos aspetos implique a desvalorização do outro. Ao invés, María Gainza vai aproveitando aquilo que se revela com uma sólida diversificada cultura para ir sempre estabelecendo relações, para nos ir abrindo portas sucessivas pelas quais nos chegam sempre novas luzes - lá andam os clássicos, Marguerite Duras ou Sylvia Plath, Chet Baker ou Sid Vicious. Mas, insista-se por inegável, nunca parecendo estar a recorrer ao academismo ou ao name dropping, infelizmente tão corrente por estes dias. Aqui, felizmente para quem lê, tudo vai aparecendo como uma cadeia que, munida de uma solidez lógica, sem elos mais fracos, não deixa de nos empolgar, inquietar e comover. Chega para garantir, sem margem de erro, que há, em O Nervo Ótico, várias consequências inevitáveis. Uma delas é uma riquíssima experiência sensorial, que se confunde com a vontade de ir acompanhando esta leitura com as imagens dos quadros que aqui vão desfilando, ao mesmo ritmo das personagens e das histórias. Talvez seja isto a literatura para ver.

O Nervo Ótico

María Gainza

Trad.: Maria do Carmo Abreu

Ed. D. Quixote

168 páginas

PVP: 13,41 euros

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.