O primeiro Bond da geração dos 70

Em Cannes, o dia foi gasto a falar da gala dos 70 anos que reuniu atores e cineastas que tiveram ligações ao festival e na morte de Roger Moore. Para alguém que cresceu nos anos 80 como eu, este ator britânico foi uma espécie de primeiro herói. Cada vez que algum rapaz da minha geração olhava para o espelho e dizia Bond, James Bond, era Moore o modelo. Todos sabíamos que o anterior 007 era melhor e tal (os nossos pais não se cansavam de o dizer em tom comparativo...), mas este foi o nosso agente secreto, aquele tipo que tinha o cabelo sempre impecável, que sabia beber bem os martínis vodca e que nem ficava tolo de smoking branco. Roger Moore não precisava de fazer muito para ser o perfeito cavalheiro britânico, bastava sorrir ou levantar a sobrancelha. Se Connery era a versão dura e masculinizada da personagem de Ian Fleming, Moore era uma proposta de autoirrisão e pastiche. Não perdia o estilo e simbolizava uma ideia de machismo politicamente incorreto da quintessência britânica, ao mesmo tempo que não levava nada disso a sério. Justiça seja feita, Moore não era tão bom ator como Sean Connery, mas era um Olivier ao lado de George Lazenby e muito mais eficaz do que o seu sucessor, Timothy Dalton. A sua limitação é que não conseguia ir além de Bond. Ele percebia isso e mesmo em filmes como Os Gansos Selvagens (1978) e A Corrida Mais Louca do Mundo (1981) estava a fazer o mesmo número. Moore era um ator espertíssimo. Depois, viveu sempre da herança 007, sobretudo quando era agente da UNICEF nas mais variadas ocasiões. Nasceu para ser 007 (e também o Santo, que era um tubo de ensaio quase perfeito para Bond) e morre agora em missão secreta contra o vilão cancro. O enterro será também secreto no Mónaco, local de muitas missões ultrassecretas. A infância da minha geração está a ficar órfã.

Jornalista de cinema

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João Almeida Moreira

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Perante um fenómeno que nos pareça ultrajante podemos ter uma de duas atitudes: ficar furiosos ou curiosos. Como a fúria é o menos produtivo dos sentimentos, optemos por experimentar curiosidade pela ascensão de Jair Bolsonaro, o candidato de extrema-direita do PSL em quem um em cada três eleitores brasileiros vota, segundo sondagem de segunda-feira do banco BTG Pactual e do Instituto FSB, apesar do seu passado (e presente) machista, xenófobo e homofóbico.