O preço do medo

Poucas pessoas na Alemanha sabiam o que quer que fosse sobre Portugal quando para lá fui viver nos anos 1970. Os meus amigos na escola, na maior zona metropolitana da RFA, iam de férias para Itália, de carro ou de caravana. Os mais ousados tinham descoberto Espanha. Só quem tinha mais dinheiro podia apanhar um avião e ir para as Canárias ou para as ilhas gregas. Portugal era terra incógnita. Com a Revolução de Abril saiu durante uns meses da total obscuridade, mas rapidamente para lá voltou.

Quando os jornais, revistas e televisões falavam de Espanha e ilustravam a notícia com um mapa, era frequente esquecerem-se de recortar Portugal. E lá estava o império espanhol filipinamente a ocupar toda a Península Ibérica. Quando não se esqueciam de tirar Portugal do mapa de Espanha, o jardim à beira-Atlântico plantado era, no melhor dos casos, literalmente um buraco no mapa. Graficamente e na cabeça de muita pessoas Portugal, era um espaço negativo no mapa de Espanha. De vez em quando a comunicação social ainda se esquece de que a Jangada de Pedra é composta por dois países. Mas nos últimos seis anos Portugal ganhou uma enorme projeção internacional. A grande aldeia da roupa branca conseguiu voltar às luzes da ribalta. Só que o preço pode ser a hipoteca da sua identidade, património e futuro. Uma hipoteca tão onerosa que pode não ter resgate nem distrate.

Depois de vendidos os anéis, foram-se os dedos: para começar, a EDP e a PT. Os antigos impostos escondidos que os portugueses pagavam para telefonar e iluminar a casa já não ficam no país: transformaram-se em dividendos que saem para os bolsos dos novos donos sediados em praças financeiras algures no mundo. Mas não foram só os dedos, foram também as mãos: um milhão de mãos foram trabalhar para outras bandas, amputadas do seu próprio país.

Teria ajudado, se nos anos de crise se tivesse investido, por exemplo na formação das pessoas. Em vez disso, o governo desistiu das pessoas. A verdade é que foram os políticos em Berlim e Bruxelas que forçaram Portugal a fazê-lo, seguindo a ideia que antes das pessoas era urgente salvar os bancos. Mas isso não melhora o resultado. Foi assim que em meia dúzia de anos o país perdeu a sua força de trabalho mais jovem, ativa e empreendedora. Por isso se espera hoje dois anos ou mais por uma consulta no maior hospital público do país. Por isso as escolas não têm dinheiro para comprar aquecedores no inverno. Por isso os processos judiciais se arrastam cada vez mais tempo.

Mas é tarde, esses portugueses não voltam. Estão a trabalhar, a ganhar dinheiro, o suficiente para sustentar as suas famílias, coisa que em Portugal não conseguiam. É fácil perceber porque é que já não voltam: sempre que aparece um empresário ou empreendedor a queixar-se de que não arranja pessoal para trabalhar, faço a mesma pergunta. Quanto é que paga? Ah pois, paga o ordenado mínimo. Porque é esse o valor da maioria dos contratos recentes e já um milhão de portugueses é só isso que recebe. Dá 516 euros líquidos por mês. Por isso os portugueses foram saindo e entrando os estrangeiros, os ricos, reformados, investidores e ex-pats; e os pobres, miseráveis, que vão para as obras clandestinas, para as estufas e para as lojas de conveniência abertas 24 hora por dia.

Não é possível resgatar a hipoteca e muitas pessoas sentem a sua identidade ameaçada quando um governo dá benefícios fiscais a reformados franceses, alemães e escandinavos mas mantém os reformados portugueses na penúria; quando um governo vende vistos gold a russos ou a chineses que passem um cheque mas os cidadãos nacionais são empurrados à força para fora das suas vidas.

Seria bom se Portugal tivesse mais para oferecer ao exterior do que sol e as casas de quem se teve de ir embora. Seria bom que os habitantes deste jardim pudessem viver num clima económico que não os diminuísse e cuspisse. Mas os sucessivos governos parecem ter esquecido quem os elege e a sua função principal: criar uma sociedade mais justa e equilibrada.

A reação face à ameaça de perda de identidade é sempre a mesma: a deriva para o populismo, o radicalismo e a xenofobia. É esse o preço do medo. Ou será que os proverbiais brandos costumes existem mesmo e servirão de baluarte?

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