O dia em que a menina Lopes ganhou a Eurovisão

Se há magia na diáspora portuguesa é que ela se desdobra, e projeta, como um jogo de espelhos. Por vezes desconhecido, ou ignorado. Outras vezes ridicularizado. Contudo, L'Oiseau et l"Enfant carregava uma carga demasiado familiar. O vinil da Polydor entrou-me casa adentro breves meses após a vitória de Myriam Lopes na edição de 1977 da Eurovisão. Filha de portugueses e nascida no Congo Belga, sagrou-se campeã em Londres em vésperas de cumprir 20 anos. Assinava "Marie Myriam", um nome que lhe emprestava um charme bem mais gaulês. Ainda que tudo aquilo fosse notavelmente português. Mais: porque o 25 de Abril havia ocorrido breves três anos antes, sentia-se na lírica um piquinho de qualquer coisa, utópica ou não, sempre indefinível para uma criança de 6 anos. Eu.
No dia em que Salvador Sobral venceu a Eurovisão em Kiev, lembrei-me da Myriam Lopes. E não porque com ela partilho o apelido (dado estatístico pouco relevante, dizem que é o 13.º ou 14.º mais comum em Portugal). Menos ainda porque, tal como ela, as últimas duas décadas da minha vida tenho andado lá fora. Sobretudo porque se em Espanha apostam na épica, nós, um nadinha mais a ocidente, adoramos a poética. Ao que consta, não foi a Myriam quem escreveu a letra. Mas a sua interpretação, com as duas ou três primeiras frases à capela, denota exotismo. Como que enfeitiça. Arrebata. A sua língua materna era o português, chegou a viver quatro anos em Coimbra. E o francês seria, imagino hoje, como que um disfarce sofisticado para o que lhe iria na alma. Naturalmente que também fiquei colado ao meu televisor estónio quando Salvador venceu para Portugal o troféu. Interessante, notei então, aquele olhar melancólico era semelhante ao de Myriam. Quiçá mais afinado. Pouco inédito, porém: jamais poderei esquecer aquela noite de primavera em que, ainda a preto e branco, Portugal conquistou a Eurovisão pela primeira vez.

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João Almeida Moreira

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