O dia da omissão

Hoje, o leitor abre este jornal, qualquer jornal, e não encontra uma linha sobre o que se passou ontem neste país, que mobilizou centenas, milhares de pessoas, em vários pontos do país, e que foi notícia. Os jornais, as rádios e as televisões demitem-se de fazer aquilo para o que nasceram: informar. Porque uma lei assim o diz, assim o impõe. Diz que é dia de reflexão - é antes o dia da omissão.

Quem esteve a ver um canal de informação na televisão na noite de ontem choca de frente com este absurdo: até à meia-noite sucederam--se diretos e comentários sobre os últimos cartuchos de uma campanha eleitoral. De repente, ao sinal horário das 00.00, o mundo mudou - nem mais uma palavra de ordem se ouviu, nem mais uma bandeira se viu. Não é informação, é omissão.

O dia de reflexão não é anedótico de agora. Já o é há muito: desde que a maturidade democrática se implantou, mais ainda quando a internet e as redes sociais caducaram o anacronismo da lei. Não peço que se acabe com a pausa de um dia na campanha - essa acabou à meia-noite. E bem. O que contesto é o anacronismo de se proibir aquilo que não faz sentido proibir: a informação sobre o que se passou ontem.

Um dia, quando alguém se debruçar sobre a história da democracia portuguesa, terá uma grande dificuldade em encontrar relatos sobre o que se passou no último dia de qualquer campanha eleitoral: os jornais em papel ignoram--no, as publicações na internet perdem-se muitas vezes. Aquilo que este dia de reflexão lega é um imenso buraco. Que em nada contribui para a democracia. Acabar com a impossibilidade da comunicação social fazer o seu trabalho neste dia devia ser uma prioridade na revisão de uma lei que, demasiadas vezes, só é lembrada nas vésperas de atos eleitorais. Informar também é optar. Não omitir.

* Jornalista

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