O dever do mundo para com a Venezuela

PARIS - A Venezuela, que conta com as maiores reservas mundiais comprovadas de petróleo, foi outrora um dos países mais prósperos da América Latina. Embora dificilmente fosse um paradigma de democracia, registou alguns avanços na construção de instituições sólidas.

Depois, em 1999, o antigo comandante de tanques Hugo Chávez assumiu o poder. E, antes da sua morte em 2013, escolheu o seu sucessor: Nicolás Maduro, um clone lastimável e sanguinário de Chávez, que chegou à presidência na sequência de eleições fraudulentas e que tem governado o país desde então.

Hoje, o mundo vê como o sonho venezuelano se vai transformando num pesadelo, como um misto de incompetência e estupidez faz desmoronar tudo: o sistema político, a economia e a sociedade. Vê a Venezuela a ser mutilada por uma oligarquia bolivariana dependente de uma Cuba ela própria exangue e que já não acredita no seu modelo político. Vê Maduro, o libertador de pacotilha, a apropriar-se das receitas da empresa nacional de petróleo para financiar o seu clientelismo e para encher fundos opacos que são geridos pelos sátrapas do seu regime sem qualquer supervisão.

Sob a liderança de Maduro, a Venezuela entrou para o grupo dos países que se encaminham para a pobreza generalizada. A sua taxa de inflação, para citar apenas mais um indicador, compete atualmente com a do Zimbabwe ou com a da Alemanha de Weimar. Somos levados a pensar na Cocanha, essa terra mítica onde o ouro - o petróleo amarelo - circula livremente, ou no eldorado, a cidade perdida de ouro visitada por Cândido. Mas o mito do eldorado - tal como é recontado por Luis Sepúlveda, Alejo Carpentier e outros - nunca acaba bem.

A Venezuela - uma espécie sui generis de eldorado - pagará um pesado preço quando Maduro a tiver esgotado completamente. Já neste momento enfrenta uma escalada de violência que deixou o país à beira da guerra civil. Nas últimas semanas, morreram 124 manifestantes. Figuras da oposição têm sido perseguidas, despedidas, raptadas, detidas e torturadas nas estações de polícia e cadeias. Para cúmulo, uma farsa eleitoral entregou recentemente a Maduro uma assembleia desconstituinte com poderes para desmantelar o frágil equilíbrio institucional do país.

Perante este desastre, duas perguntas vêm à mente. A primeira reflete a minha perspetiva de francês, mas também pode ser aplicada a outros países ocidentais. Durante quanto tempo, interrogamo-nos, continuará Jean-Luc Mélenchon - um candidato às eleições presidenciais francesas da passada primavera e que agora aspira a liderar a oposição como chefe do partido populista de esquerda França Insubmissa - a entoar louvores ao regime assassino da Venezuela?

Interrogamo-nos sobre quantas pessoas terão de morrer para que Mélenchon chame as coisas pelo seu nome e reconheça que as forças de segurança de Maduro não são diferentes das que semearam o terror no Chile e na Argentina ainda não há assim tanto tempo? O que será necessário para Mélenchon admitir que o brutal regime da Venezuela nunca foi uma boa "fonte de inspiração" ou reconhecer que a sua proposta da campanha eleitoral de formar uma "aliança bolivariana" - que aproximasse os herdeiros dos queridos caudilhos já falecidos, Castro e Chávez - foi de facto uma má ideia?

Para já, parece que nada fará Mélenchon mudar de ideias. Tal como o Podemos em Espanha, o Syriza na Grécia e Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha, Mélenchon e os seus seguidores "insubmissos" parecem acreditar que as mãos ensanguentadas são desculpáveis na luta contra o "imperialismo".

Pior, quando se exprimem publicamente, é para responsabilizar as vítimas ou para denunciar a "desinformação". Por exemplo, Djordje Kuzmanovic, um sinistro porta-voz do partido de Mélenchon, tem comparado os manifestantes pacíficos venezuelanos com os golpistas que levaram Augusto Pinochet ao poder no Chile em 1973.

Também Alexis Corbière, um deputado de extrema-esquerda recém--eleito para a Assembleia Nacional francesa, somou a vergonha à cobardia ao insultar os venezuelanos que morreram em defesa da democracia e do Estado de direito. Tem sugerido que se tratava apenas de jovens dos bairros de luxo que tiveram o que mereciam; e tem desvalorizado os ataques selvagens do governo à oposição comentando que "algumas vezes há quem se queime". As declarações de Mélenchon e dos seus parceiros são indignas de qualquer partido que deseje ser considerado como a oposição em França.

A minha segunda pergunta dirige-se à comunidade internacional, que tem pelo menos duas razões para se interessar pela situação na Venezuela. A primeira é a "responsabilidade de proteger", tal como está definida na Carta das Nações Unidas. Os Estados membros da ONU deviam sustentar este princípio enviando um sinal forte ao governo de Maduro para que ponha fim à atual violência.

Para tal, o Conselho de Segurança necessita de reunir a coragem necessária para emitir uma declaração inequívoca de condenação do regime. Os líderes da oposição venezuelana que ainda gozam de liberdade de movimentos em Paris, Madrid e Washington deviam ser recebidos a título oficial. Os ministérios dos Negócios Estrangeiros francês, espanhol e americano deviam exprimir a sua solidariedade com a legislatura venezuelana, que o golpe de Maduro através da Assembleia Constituinte ameaça dissolver. E, evidentemente, as advertências sem nenhuma eficácia do Mercosul e as tímidas ameaças de intervenção militar do presidente dos EUA, Donald Trump, deviam ser substituídas por enérgicas sanções económicas e financeiras.

Em segundo lugar, a situação na Venezuela devia preocupar todos os países empenhados na luta contra o terrorismo e contra as redes de lavagem de dinheiro que o financiam. Afinal, qual foi o propósito alcançado pela aliança bolivariana entre Chávez e o antigo presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad? E para onde foram os membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia? Pouco tempo antes da sua morte, o líder das FARC Iván Ríos disse-me que muitos militantes das FARC tinham sido enviados "em missão" para o país do "socialismo do século XXI".

Mais recentemente, alguns dirigentes da oposição antichavista - por enquanto exilados em território selvagem - alegaram que o regime de Maduro tem fortes ligações com a Coreia do Norte, o regime de Bashar al-Assad na Síria e o grupo extremista Hezbollah. Devemos acreditar nestas afirmações?

São todas perguntas que devem ser feitas - e para as quais deve ser dada uma resposta. Sabemos pela experiência do passado que nenhum ato é demasiado depravado para um regime desesperado. No mínimo, o coup d"état em câmara lenta da Venezuela justifica comissões de inquérito no espírito do Tribunal Russell e um maior interesse por parte dos meios de comunicação ocidentais - não o silêncio embaraçado com que a comunidade internacional tem respondido até agora.

Filósofo e escritor

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