O Clube dos Olisipógrafos Sonhadores

Estou numa praça de Lisboa. É uma praça do centro, mas todas as praças são um centro. Uma cidade pode definir-se pelas suas praças e pela capacidade destas se tornarem novos centros, periferias em flor.

Se há uma primavera urbana numa cidade ela pode ser sentida, como pólen, na pólis dos lugares: dos mercados às lojas, nas esplanadas, nos cafés.

(A Europa são os cafés, diz o George Steiner. E as esplanadas, acrescento. Ainda poderemos salvar a Europa pelas esplanadas dos cafés?)

Em tempos de redes sociais, em que o risco é ficarmos a falar só (sós) com os amigos do algoritmo, excluindo os outros, é na cidade e nas suas praças que precisamos de recuperar o sentido profundo da vida em comunidade: viver com os outros.

Viver na cidade, esse lugar comum, que é por vezes como nenhum outro e outras vezes como qualquer um.

É da cidade esse alvoroço, por onde, como na canção, "vamos meio sem rumo/ meio à procura/ de alguma cura/ de alguma graça (...) E é preciso Cantar/ Enquanto houver festa na praça".*

A festa na praça é o agora na ágora. A festa das histórias e da possibilidade das histórias no presente da praça.

(" ...o homem que está do outro lado da rua há-de ser meu amigo, o miúdo por quem passei há pouco é um génio e escreverá uma obra admirável quando for velho, o velho que está com ele morrerá antes de o pressentir sequer, aqueles dois que se beijam ao lado estarão separados dentro de um ano, o homem que entrou no táxi não sabe mas vai ter uma missão e salvará a vida de doze pessoas, o outro que saiu do táxi sabe que é um criminoso e vai a caminho da sua vítima, a mulher que comigo agora se cruza é o meu grande amor e ambos ainda não o sabemos...")

Viver numa cidade, como habitante ou como viajante, é não tanto viver nas suas ruas e nos seus bairros físicos, palpáveis e reais, quanto viver nas suas histórias e nas suas imagens.

Mais do que a sua arquitectura ou o seu urbanismo, o que nos liga a uma cidade, é a sua mitologia e a sua energia. A sua possibilidade de evocar e criar histórias e de inspirar pessoas a encontrarem-se e desencontrarem-se na memória e fulguração dessas histórias.

Uma cidade é um acontecimento civilizacional no Tempo e define-se pela sua capacidade de fundar mitos. Quanto melhores e mais diversas forem essas mitografias e iconografias, melhor é a qualidade da vida nessas cidades e o seu brilho civilizacional.

Uma cidade é um livro inacabado, um palimpsesto infindável e habitado, por passageiros circunstanciais, uns mais outros menos demorados, uns mais indiferentes outros diferentemente movidos pelo que nessa cidade os intriga, os instiga, os inspira e apaixona, todos acrescentando histórias, história à cidade, cidade à cidade.

Sabendo que quando vivemos na mesma cidade nunca vivemos na mesma cidade, cada um vive na cidade que tem na cabeça, na cidade que sonha.

É pelos mapas imaginários que de verdade nos orientamos. E é nos mapas imaginários das cidades que realmente vivemos. Tenham eles a forma de poemas, desenhos, histórias, filmes ou canções...

Pode acontecer ganharmos uma cidade por causa de um só verso ("Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo - (...) Estrangeiro aqui como em toda a parte"). **

Como o amor, uma cidade é "una cosa mentale".

E apaixonamo-nos pelas cidades onde nos apaixonamos. Amamos as cidades por sinédoque.

Nunca nos ligaremos a uma cidade onde não tenhamos tido uma infância ou um momento de ingenuidade perdida. Onde não nos tenhamos apaixonado ou onde não acabemos a viver numa solidão que tenha o tamanho dessa cidade.

Só deveríamos viver numa cidade onde se possa viver uma vida poética.

Uma cidade que seja mais do que uma cidade com História, uma cidade com histórias. Contra a massificação do turismo que é o grande banalizador das histórias, reduzindo-as a uma telenovelização kitsch de parque temático.

Lisboa precisa de fazer a guerra contra o cliché. Precisa de criar novos enredos inesperados, com personagens vindos de muitos lados do mundo, capazes de criar uma nova narrativa múltipla, densa e vibrante. Uma cidade de mútuas descobertas, património de futuro.

Por ruas, esquinas, praças, becos, escadarias - divagaremos sonhando sonhos tatuados como miragens no corpo inquieto da cidade.

O futuro de Lisboa está a ser imaginado por uma sociedade secreta: O Clube dos Olisipógrafos Sonhadores.

O clube existe sem fazer reuniões, só encontros ao acaso. E não tem regulamentos, só cumplicidades.

Os seus membros planeiam, sem suspeitarem, uma conspiração imaginária: fazer de Lisboa uma cidade mitológica onde haja uma grande probabilidade de ter uma vida feliz.

(*Alvoroço, JP Simões; ** Lisbon Revisited, Álvaro de Campos)

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