O berbequim nas férias

A nuvem castanha de fumo do incêndio de Monchique alastra no céu do Algarve como um derrame sombrio eclipsando o Sol e o azul do verão. Da serra, pelos jornais e televisões, chegam notícias do bom jornalismo (por exemplo, o da reportagem do Ricardo J. Rodrigues, aqui no DN; ou o da Mariana Flor, para a RTP) e do mau jornalismo (dos sítios do sensacionalismo do costume e dos pervertidos em nome das audiências).

Convocam-se os especialistas, os independentes, e os outros, que com os primeiros se confundem, mas que são pagos - agora, antes ou mais tarde, pelas empresas de celulose para dizer que é falso que a eucaliptização do território seja (juntamente com as alterações climáticas) a principal causa dos incêndios. Ou seja, para defenderem ou relativizarem uma mentira, em nome de interesses económicos.

(Sobre a promiscuidade entre política, indústria das celuloses e academia deve ler-se o livro Portugal em Chamas - Como Resgatar as Florestas, de João Camargo e Paulo Pimenta de Castro, onde se desmascara as ligações que explicam a eucaliptização de Portugal e a forma como esse processo tem sido defendido por uma academia - e uma imprensa, compradas ou condicionadas por esse poderoso lóbi.)

Extinto o incêndio, desta vez sem vítimas humanas a assinalar, logo os fumos, as responsabilizações e as demagogias se vão dissipando na dormência estival.

Escrevo na casa das férias, como um enviado especial à preguiça de agosto. E poderia concluir com uma frase de jornalismo televisivo de verão dizendo que, por aqui e agora, o Algarve não podia ser mais Algarve do que está a ser.

"No Algarve, a máquina de fazer paisagem é o turismo com todas as suas variedades e contradições. Não é só uma ria formosa, há patinhos feios e muitos animais escanzelados, vai da serra ao areal, do negócio de milhões à bancada da fruta e do peixe do mercado (...) a frenética turística dá de comer a muito povo apesar da sua inclinação predatória por lugares bonitos e comida rápida" (Álvaro Domingues, no excelente Volta a Portugal).

Há muitos Algarves no Algarve (até já houve o Allgarve, hoje felizmente tão extinto como o incêndio de Monchique).

Daqui onde escrevo, apesar de saber que o melhor de agosto no Algarve é em setembro, os anos que levo de verões anteriores fazem-me ter o mapa da realidade paralela à dos supermercados e restaurantes cheios ou à das praias animadas com música nos altifalantes e eventos.

Mapa de lugares como aquele onde se come as melhores ostras e onde o dono nem quer ouvir falar de ampliação do espaço para ter mais clientela: "Para quê?"

Um involuntário guru da Ria. E, para mais, as ostras são, de facto, divinais.

Ou como aquela praia que ao fim da tarde fica tão aborrecida e sem ninguém, que o único som que se ouve é o das ondas do mar ou de um ou outro banhista sem interesse nenhum.

Ou, lugar de luxo maior, a rede, não a que é cada vez mais dominada pelas grandes corporações, mas a outra, que é só controlada pela nossa cadela Bela, onde passo tardes como esta a balouçar, agora entre a preguiça e o tema da crónica.

Nem de propósito, para contradizer, a paz da tarde é interrompida pelo som perfurante de um berbequim.

Saio disparado com a indignação de um hater de rede social, pelo menos daquela rede, apesar de não muito social:

"Obras?! Em agosto?! Numa zona de casas de férias?! Quem é que decide fazer uma obra sem pensar que os outros estão a descansar - ou a cronicar (optei por não dizer esta variação, para não gerar equívocos) ... ao lado, precisamente nesta altura?!"

A pergunta era retórica, claro. Quem decidiu foi o próprio dono da casa, como era óbvio. Os trabalhadores confirmaram com o esperado:

"Nós estamos aqui a cumprir ordens... Pois, isso não sei... Tem de falar com o patrão."

E voltaram à berbequinagem vária. E eu regressei à rede a ensaiar várias indignações no meu regresso à crónica.

Mas eles não brincavam em serviço. Pausas longas, sem barulho, para que, logo que eu voltasse a começar a escrever, o berbequim irrompesse de novo metálico, elétrico, estridente.

Várias vezes experimentei começar a ler, a dormitar, a escrever mais um pouco e, no exato momento em que o silêncio parecia ter-se instalado de vez, o berbequim recomeçava.

Eram profissionais a sério das obras de agosto. Tinha mesmo a sensação de que estaria a ser monitorizado por câmaras que, ao mínimo sinal de que eu estava já a esquecer-me das obras, um alerta era lançado para o maestro da obra que iniciava um novo andamento da secção de berbequins.

Estava cada vez mais irritado e, por mais que procurasse relativizar com o "Para quê?" do guru das ostras, a minha mente estava cada vez mais ocupada com planos de retaliação congeminados na zona mais negra da rede.

Por fim, chegou o dono da casa, veio ver como estava a obra. Estava em curso, disso não havia dúvida.

Regressei ao lugar do futuro crime e repeti a pergunta-desabafo: "Como é possível, em pleno agosto, etc."

O homem, acabado de sair de um automóvel que era de certeza o último modelo de uma gama ambulante de estridência, respondeu-me sem olhar para mim, com o olhar mortiço num desígnio insondável:

"O que é que você quer? Isto atrasou tudo. As autorizações da câmara, este país não funciona, os empreiteiros são uns vigaristas, os homens são preguiçosos e não querem trabalhar"... Lá fora, para onde eu fui trabalhar, isto não é assim... Aqui neste país é que..."

Interrompi-o antes de vir o "o que isto precisava era...":

"A decisão de não parar a obra em agosto é sua. É uma falta de consideração pelos outros."

"O que é que você quer? Eu não posso perder mais dinheiro. A culpa não é minha.

Olhe, vamos ser vizinhos, venha beber um copo, pago eu. Por hoje acabou-se a obra. Recomeçam amanhã. Dê cá um abraço."

Recusei o convite e o abraço do novo vizinho, numa manifesta falta de compreensão do problema e, sobretudo, numa insensível demonstração de falta de cultura dos afetos.

Regressei derrotado ao meu território, sabendo que não haveria nada a fazer visto que o novo vizinho era o berbequim ele próprio.

Ainda o vi afastar-se a resmungar com a falta de espírito de vizinhança. E com o país, em geral.

Depois de uma pequena pausa, no preciso momento em que recomeçava a escrever a crónica, o som do berbequim voltou.

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