Navegar é Preciso - O génio acidental

Afinal, Ingrid Bergman não achava qualquer graça a Humphrey Bogart e a "química" atribuída à dupla, um dos trunfos decisivos do filme Casablanca, nunca existiu. A atriz sueca, a quem se atribuiu vários romances com parceiros de cena, não via talento especial no homem que precisara de tantas oportunidades para se revelar em Relíquia Macabra e gozava com a circunstância de Bogart precisar de usar sapatos com plataformas para se tornar mais alto do que ela. Além disso, Ingrid cumpria em Casablanca um "empréstimo" - sob contrato com David O. Selznick, fora temporariamente cedida à Warner Bros. Mas ansiava pelo começo do trabalho no filme que realmente a motivava, Por Quem os Sinos Dobram, ao lado de Gregory Peck. No livro The Making of Casablanca - Bogart, Bergman and World War II (ed. Hyperion, 1992), o autor, Aliean Harmetz, dá conta de que os dois atores só se encontraram uma vez fora dos cenários, na ocasião em que aceitaram um convite para almoçar de uma amiga comum, Geraldine Fitzgerald. Esta contaria, mais tarde, que a conversa de ambos se centrou na melhor forma de escaparem ao filme, que consideravam "inconsequente" e cheio de "diálogos ridículos". E Bogart ainda tinha de lidar com as cenas de ciúmes que a sua cara metade à época, Mayo Methot, repetia insistentemente, acusando-o de ter um caso com Bergman...

Victor Fleming, que ganharia um Óscar pela realização, também não nutria grande ternura pelo projeto. A ponto de uma das frases-chave - a que fecha o filme e dá conta do "princípio de uma bela amizade" - ter sido acrescentada pelos produtores e guionistas, sem o conhecimento do cineasta. A canção imortalizada por Casablanca, As Time Goes By, não era original: fora escrita onze anos antes da rodagem e estreada num musical chamado Everybody's Welcome. O homem que a canta, Dooley Wilson, era baterista e não pianista - no filme, só finge estar a tocar. Só mais esta: só três dos atores envolvidos, Madeleine Lebeau, Marcel Dalio e Conrad Veidt (chamados aos papéis de Yvonne, de Emil e de Major Strasser), foram os únicos a sofrer diretamente a ameaça dos nazis - o casal francês tinha fugido depois da ocupação do seu país, o alemão chegara a ter a morte decretada pelas SS, por simpatizar com os judeus. Já agora: Bogart e Bergman foram segundas escolhas para o elenco, uma vez que, para as figuras de Rick e Ilsa, foram originalmente convidados George Raft e Michèle Morgan.

Apesar de tudo isto, foi este o filme que levantou plateias nas salas de quase todo o mundo quando, numa cena épica, A Marselhesa era cantada de forma a sobrepor-se a Die Wacht am Rhein. Nem Lisboa escapou a esta febre, por exemplo no Politeama, apesar da estreia local tardia de Casablanca (17 de maio de 1945, já com o conflito próximo o fim).

Se aqui se regressa a todas estas verdades, o objetivo não é vestir a pele do desmancha-prazeres ou assumir o estatuto de destruidor de mitos. Trata-se, apenas, de render (mais) uma homenagem ao cinema, tão fértil e tão útil em valer mais pelo que fica à vista do que por todas as realidades subjacentes. E, por outro lado, porque se percebe como o génio e a perenidade - ninguém contesta Casablanca como uma das grandes fitas de sempre - podem acontecer à revelia (ou mesmo contra a vontade) dos agentes envolvidos.

NOTA. Esta coluna descobre o nome em duas frentes. Uma cantiga, Os Argonautas, de Caetano Veloso, com inspiração em Fernando Pessoa e outras fontes mais distantes; mas também um livro soberbo, que se recomenda sem reservas: Deus-Dará, de Alexandra Lucas Coelho (ed. Tinta da China, 2016), que dá a volta ao mundo e à história, sem precisar de sair do Rio de Janeiro.

Ler mais

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.