Não há Festa como esta

É hoje. Pelas seis da tarde abrem-se aos visitantes as portas de mais uma edição da Festa do Avante!. Uma realização -- por muitos reconhecida como a maior iniciativa político-cultural realizada no país -- que marca um momento importante na acção do partido que a edifica, o Partido Comunista Português. Nesse sentido mais literal que o franquear de portas significa enquanto condição de acesso ao aprazível espaço da Atalaia, ampliado desde o ano passado à Quinta do Cabo, se pode falar de entrada. Entrada na dimensão física do termo e não reentrada política, as muito faladas rentrées, que por via daquele toque parisiense do termo lhe dá uma dimensão de modernidade e finura que, assentando sempre bem, muitos preferem usar. Não tendo nada contra o termo, gramaticalmente examinado, a verdade é que no caso presente ele não só não se aplica como parte de pressuposto errado. Em rigor, e no respeito pelo que o vocábulo traduz, o acto de reentrada tem como condição prévia o de saída. Não questionando o direito ao uso do termo ou à identificação de quem quer que seja com o conceito, preferimos não o adoptar. Respeitado o inalienável direito a férias de milhares dos seus membros, a actividade do partido a que pertenço não conheceu intermitência. Cá estivemos e muitos nos encontraram na diversificada actividade que neste período mais recente desenvolvemos. Mas sobretudo, prova das provas dessa continuada intervenção, o trabalho de construção da festa pelas mãos de milhares de homens e mulheres, jovens e menos jovens, membros do PCP, simpatizantes ou mesmo outras pessoas que sentem e vivem a festa como sua. Uma construção que faz desta realização obra colectiva, baseada numa acção militante, simultaneamente generosa e convicta, dos que a todo o momento tomam nas suas mãos o que delas depende, sabendo que cada pedaço da sua contribuição individual, do seu tempo e do seu saber faz parte de um caudal mais vasto que é património de todos e parte da luta que travam por um Portugal com futuro. Uma construção que tomam como sua em chão que contribuíram para adquirir.

Bem-vindos pois à festa. Cá nos encontraremos neste espaço aberto a todos. Espaço de convívio e tranquilidade por mais que alguns se esforcem em não querer aceitar. Uma festa simultaneamente tomada como sua pela juventude e pelos milhares de famílias que entrelaçando gerações dela usufruem. Espaço marcado pelo respeito mútuo vivido por muitos, todos bem acolhidos, de diversos posicionamentos políticos, culturas ou credos. Um espaço marcado pela solidariedade humana, pela dimensão internacionalista e pela multiculturalidade que, dos espectáculos ao pavilhão da imigração, marca presença.

Uma festa que é expressão da dimensão cultural associada ao projecto do partido que a promove. Do teatro ao cinema, das artes plásticas (com a 20.ª Bienal de Artes Plásticas) à ciência, do desporto à literatura, da gastronomia ao artesanato, lá se encontrarão os pontos de interesse que preencherão os diferentes gostos dos visitantes da festa. E um programa de espectáculos, mais de duas centenas em múltiplos palcos, capaz de atrair públicos tão diversificados que, do jazz ou da música popular, do fado à música tradicional, lá encontrarão resposta. Ah!, e a não perder, a exemplo de todas as noites do primeiro dia da festa, a força comunicativa e contagiante da música clássica pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa e do Coro Lisboa Cantat, sob a direcção dos maestros Vasco Pearce de Azevedo e Jorge Alves.

E também assumidamente um programa político. Presente na atmosfera em que a festa é vivida, na afirmação do projecto, do programa e das soluções para dar resposta aos problemas dos trabalhadores, do povo e do país: na multiplicidade dos debates, nas exposições, na evocação do centenário da revolução socialista de Outubro com a sua actualidade, na afirmação da Coligação Democrática Unitária e no seu percurso de trabalho, honestidade e competência ao serviço das populações, na afirmação da política patriótica e de esquerda de que o país necessita. E naturalmente no acto de abertura e no comício de encerramento.

Aos que se preparem para "aqui del-rei" não há direito de usar este espaço para fazer propaganda apenas se acrescentará que, por mais que isso os incomode, a Festa do Avante! é talvez um dos momentos em que de modo mais evidente se desfazem preconceitos e permitem dar a conhecer o que propõe e move a acção dos comunistas em Portugal. Certo de que todos os outros, a grande imensidão dos que lêem e os que dirigem este jornal, saberão ler neste texto não um manifesto de propaganda mas tão-só a expressão de uma realização associada a uma força com uma intervenção política indissociável da concepção de democracia cultural que assume no seu projecto de sociedade.

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?

Premium

Catarina Carvalho

O populismo na campanha Marques Vidal

Há uma esperança: não teve efeito na opinião pública a polémica da escolha do novo procurador-geral da República. É, pelo menos, isso que dizem os estudos de opinião - o número dos que achavam que Joana Marques Vidal devia continuar PGR permaneceu inalterável entre o início do ano e estas últimas semanas. Isto retirando o facto, já de si notável, de que haja sondagens sobre este assunto.