Memória de um grande 'barrister'

Sir Desmond de Silva, o principal advogado criminal do Conselho da Rainha e um dos maiores advogados britânicos, deixou-nos em junho deste ano. Foi advogado de defesa, perante tribunais britânicos e estrangeiros, em mais de 250 casos, que vão desde acusações de homicídio, terrorismo, extradição, violações dos direitos humanos, a fraude, lavagem de dinheiro, bem como casos relacionados com a legislação desportiva. Foi promotor no caso de crimes de guerra em Serra Leoa onde, como advogado de defesa, literalmente salvou a vida do jornalista Rail Odinga, que veio a tornar-se primeiro-ministro do Quénia. Os seus clientes eram nomes bem conhecidos como Shirley Beyse, Baz Oldrin, Lorde Broket, John Terry e outros. Num livro dedicado ao grande caso de corrupção na Primeira Liga de futebol no Reino Unido, foi escrito sobre ele: "Usando uma expressão futebolística, Desmond de Silva é uma mega-estrela da advocacia". A revista Time apelidou-o de "Pimpinela Escarlate", comparando-o à figura principal da obra da Baronesa Orczi, de 1905, que leva uma vida dupla lutando intransigentemente pela justiça (esta obra serviu de modelo para personagens como Zorro, Homem-Sombra, Super-Homem e Batman).

Príncipe-Herdeiro Alexander II, Patriarca da Igreja Ortodoxa Sérvia, Embaixador Oliver Antic e Sir Desmond de Silva

Sir Desmond de Silva foi um orador incomparável, um advogado de defesa excepcional em interrogatórios frente a tribunais de júri, possuía uma formação académica invejável (frequentou a Trinity College, a St. Anthony College, Oxford, entre outras), era um cavalheiro, tanto na forma como na essência. Como qualquer pessoa de caráter, ele tinha amigos, mas também inimigos. Sobreviveu a tentativas de assassinato (por envenenamento e com armas de fogo), após as quais sabiamente declarou: "Nada é mais emocionante do que ser o alvo sobre o qual se dispara e se falha".

Sir Desmond de Silva era um advogado que sabia, em casos concretos, incorporar na medida certa a justiça (terrena) na raison d'État . Isto ficou demonstrado no caso do assassinato do conhecido advogado irlandês de Belfast, Patrick Finucane, devotado à proteção dos direitos humanos, que provou em tribunal a violação dos direitos humanos pelo governo britânico em várias ocasiões. Finakan foi morto em 1989, com 14 balas, enquanto almoçava em casa, na frente dos filhos e da mulher, que ficou ferida na ocasião. Ele foi baleado por um informante da polícia britânica. O caso transformou-se num dos maiores escândalos da época. Desmond de Silva foi nomeado pelo primeiro-ministro Cameron para investigar o caso e apresentar um relatório. No seu relatório, este afirma que o caso é uma "falha deliberada e objectiva de vários governos", apresentando provas de falhas graves por parte de membros do serviço secreto (MI-5) e da polícia, mas conclui que o governo não estava envolvido no assassinato. Por causa deste relatório, o presidente do governo britânico apresentou desculpas à família de Finakan, que qualificou o documento de "vergonhoso".

Fui apresentado a Sir Desmond de Silva pelo Príncipe-Herdeiro Alexander II (Karađorđević), no Palácio Real de Belgrado. Encontrámos-nos posteriormente por diversas vezes, em que discutimos as questões legais dos direitos de herança do Príncipe Alexandre II, assim como alguns dos nossos casos mais mediáticos (ele felicitou-me pela reabilitação do General Mihailovic, do Príncipe Paulo e do próprio Príncipe Alexander). Desde então aproximámo-nos e tenho muito orgulho em dizer que Sir Desmond era meu amigo.

O título de Sir foi-lhe concedido em 2007. Possuidor de várias condecorações, foi-lhe atribuída a mais alta condecoração da Ordem da Águia Branca, em 2016, pelo Príncipe Alexandre II da Sérvia. Desmond de Silva era casado com a Princesa Katarina Karadjordjevic, uma parente do Príncipe Alexander e neta do rei jugoslavo Alexander I (Karađorđević), sendo igualmente trineta da Rainha Vitória; de modo que a Princesa Victoria, filha de Desmond de Silva, faz parte da linha de sucessão ao trono britânico.

Na literatura publicada, pode ser encontrada a descendência de Sir George Desmond Lorenz de Silva: de uma conceituada família do Ceilão (actual Sri Lanka), com descendência matrilinear holandesa, inglesa e escocesa. Quando o vi pela última vez, em Setembro de 2017, já eu estava como embaixador em Lisboa e, devido ao facto do seu apelido ser tão frequente em Portugal, questionei-o acerca da sua ascendência patrilinear portuguesa. Ele revelou-me que os seus antepassados foram de Portugal para o Ceilão no séc. XVI, na época da presença portuguesa na zona. Infelizmente, estas informações não podem ser encontradas na literatura disponível, incluindo a Internet.

Sir Desmond de Silva e a sua família são mais um de uma série de elos que ligam Portugal e a Sérvia.

Embaixador da Sérvia em Portugal

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