Medicina "low cost"

Está na moda o transformismo low cost e apregoa-se o imperativo de aumentar a produtividade, banalizando o slogan: fazer mais e melhor, a menor custo. Mas o "melhor" nunca é definido!

Na economia da saúde "curativa", vários fatores e diferentes agentes contribuem para o custo final. Prestadores clínicos diretos (médicos e outros), prestadores institucionais (cuidados clínicos de saúde, cuidados técnicos de saúde não-clínicos, serviços de apoio administrativo, serviços de gestão, serviços de marketing e publicidade, etc.), prestadores subcontratados (diversas áreas clínicas e não-clínicas), financiadores, reguladores!, instituições formativas e pedagógicas, etc.

Os anteriores e outros contribuem para o consumo de bens chamados de saúde (muitos são de doença e outros nem uma coisa nem outra) e, em particular, para o consumo do ato médico (latíssimo senso). Mas, na realidade atual, o custo final das atividades em saúde tem, muito mais peso de atos não-médicos do que o valor absoluto do exercício da medicina clínica.

Não haverá controlo, honesto, das contas, em Saúde, enquanto a Sociedade não clarificar e definir se a Saúde é bem público ou bem de consumo corrente e se a economia da saúde deve ser negócio com a saúde, de saúde ou na saúde.

Vulgarizou-se o estímulo ao consumo de "produtos de saúde" por parte de prestadores, fornecedores de equipamentos, investidores nas novas tecnologias, indústrias várias, etc. Tantas vezes sem verdadeiro suporte científico ou comprovação empírica de eficácia. Há cartazes, vídeos, promoções, etc., que empurram o cidadão comum para uma atitude consumista de bens ou serviços ditos de saúde.

Qualquer entidade - Médico não! - publicita qualquer produto, apregoando-o como benéfico para a saúde. Alguns produtos que podem não ter indicação ou ser contraindicados individualmente são divulgados de forma exuberante. Claro que ressalvam: em caso de dúvida consulte o seu médico!

O crivo da medicina clínica reduz o consumo de EAD (exames auxiliares de diagnóstico) supérfluos e o exercício consistente e bem formado da prática clínica deverá contribuir para reduzir os custos com atos médicos desnecessários.

Medicina clínica não é aquela que se pratica a metro, ou a peso, ou à hora, sem critérios de qualidade, investimentos em formação, regulação e supervisão técnica e comportamental, com profissionalismo ou ética decretados politicamente.

Nos exames e concursos da carreira médica hospitalar, os candidatos faziam a anamnese e a observação dos doentes e pediam EAD, mas tinham de propor um diagnóstico provisório e justificar os pedidos de EAD com elaboração de um raciocínio e um diagnóstico diferencial. Os candidatos interiorizavam a necessidade de fundamentação e empenhavam-se mais na abordagem clínica. Tal obrigava a que os médicos dedicassem mais tempo à familiarização com a interpretação de EAD e sua integração no raciocínio diagnóstico. A exigência era maior e a cultura era diferente. A clínica tinha a primazia.

Hoje, muitos médicos leem relatórios de EAD e, na dúvida interpretativa, pedem mais EAD quando deveriam partilhar as dúvidas com os relatores desses EAD e, só seletivamente, solicitar mais EAD. E a produtividade(!), exigida aos fazedores de EAD, condiciona a qualidade dos relatórios .

A decisão de mais ou menos EAD deve resultar de uma análise clínica individual e não de uma medicina consumista, defensiva ou administrativa. Uma "medicina de custos controlados", com qualidade, só é possível se envolvermos todos os agentes numa partilha de responsabilidades e risco e a eles juntarmos os utilizadores que pretendem "serviços de saúde", em particular os não justificados clinicamente. Estes deverão ser suportados pelo próprio e não por todos.

Os custos com a medicina devem ter em consideração a formação profissional e o nível de medicina clínica envolvido. A formação exige mais tempo, mais recursos humanos, aumenta o risco de erro, influencia a produtividade, etc. Os custos, para os fornecedores do "produto" final, não são iguais!

Sem formação contínua, partilha de responsabilidades e risco, critérios clínicos condicionantes da prescrição de atos, procedimentos médicos, de novas tecnologias, regulação e ética, monitorização e discriminação positiva, enfim, só com padrões economicistas e de gestão estatística e financeira, apenas haverá medicina low cost e não controlo de custos em saúde.

* Médico e coordenador médico da "Best Medical Opinion"

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