Líderes para os nosssos tempos

Uma vez perguntei a Mário Soares qual era a mais importante característica de um líder.

A resposta veio sem hesitação: A coragem. Não há liderança sem coragem.

No dia 25 de abril de 1974 eu não estava a perceber muito bem o que se estava a passar. Tinha 11 anos, o pai e a mãe logo de manhã de volta do rádio, hoje não vais à escola.

A minha mãe diz uma daquelas frases destinadas a nunca mais serem esquecidas: "Já não vais à guerra".

A alegria comovida da minha mãe ao dizer aquela frase foi a minha iniciação à consciência política.

Depois daquele dia "inicial, inteiro e limpo", vieram os dias seguintes, como prosa múltipla e torrencial depois de um poema que inaugurava todas as possibilidades e onde, parafraseando, livres habitávamos a substância do tempo.

Portugal estava em revolução. E eu também.

Mas quem iria liderar o país?

Dia 28, chegada de Mário Soares a Santa Apolónia. Nós a vermos na RTP e o meu pai a dizer: "É este. O homem que o país precisa para o liderar. Vai ser ele.". E foi a outra frase que eu guardei daqueles dias.

Há uma foto que mostra Mário Soares e Maria Barroso à janela do comboio. É uma foto histórica. Da minha história ela faz parte insubstituível: está lá fotografada toda a esperança do meu pai.

Soares cometeu muitos erros e fez-se rodear muitas vezes das pessoas erradas. Mas, no essencial, acertou sempre. Devemos-lhe muito. Foi a figura mais importante da Democracia Portuguesa, desde os tempos da resistência ao fascismo à nossa entrada na Europa e como presidente de todos os portugueses.

Tive a sorte de o conhecer, de poder falar com ele sobre a nossa época e de o ouvir fazer o elogio da política. E da coragem. Que ele sempre teve.

A melhor definição de coragem que conheço é de Ernest Hemingway: "Grace under pressure". Graça sob pressão.

Tal como em 1974, hoje precisamos de líderes e perguntamos: onde estão?

Vivemos num tempo complexo, dominado pelo populismo, que é, paradoxalmente, a resposta simplista - e deturpada, para problemas que não são simples. O populismo é resumir o todo a uma parte isolada e repeti-lo fanaticamente.

Como combater isso? Como encontrar um líder que seja popular sem ser populista?

Podemos combater o mau populismo com o bom populismo, como o tem feito Marcelo Rebelo de Sousa em Portugal. Mas o que Marcelo tem feito - e bem, tem sido ao nível da representação do colectivo, que a sua função presidencial implica e limita. Falta fazê-lo ao nível da execução de políticas de transformação que ganhem escala e dimensão europeia num contexto global.

Perguntamos onde estão os líderes de que precisamos, mas devíamos antes concentrarmo-nos nas condições para que eles possam afirmar-se.
Um líder é o protagonista de uma narrativa múltipla e afirma-se na circunstância que possibilita essa narrativa. E terá sempre uma componente de intuição emocional nessa afirmação.

Mas a circunstância hoje, mais que nunca, tem lugar num mundo onde tudo existe como espectáculo e em que os líderes políticos actuam sempre condicionados em função de resultados performativos pessoais que se sobrepõem à avaliação das suas políticas. Um mundo em que a procura da verdade é, a cada instante, dinamitada pela voragem manipuladora das agendas dos média sensacionalistas ou corruptos, pelo domínio das agências de comunicação sobre o jornalismo, e pela proliferação nas redes sociais das notícias falsas.

O problema não está tanto do lado dos líderes ou do seu discurso. Está nas condições para fazer esse discurso. E nas formas e plataformas para o fazer chegar a todos.

A democracia hoje, mais do que nunca, joga-se do lado de cá do poder. Da consciência política dos cidadãos e da resistência do jornalismo e da sua presença nos média e nas redes.

O problema central não é a indiferença ou a abstenção política que favorecem o populismo e o fanatismo. É a ignorância que as alimenta. A pergunta chave que está presente na mente de todos os que acreditamos na necessidade do jornalismo é:

Em quem vai votar quem não estiver informado?

Cabe aos jornalistas encontrarem novas formas de chegar aos cidadãos, nos jornais e para além dos jornais. Cabe aos cidadãos valorizarem essa prática de questionamento da verdade.

O elogio da política pressupõe fazer de cada cidadão um cidadão livre, informado e capaz de ter a graça para, sob qualquer pressão, poder decidir sobre o seu futuro e o da sua comunidade.

Agradeço sempre a sorte de poder partir da liberdade e democracia deste país e dos seus lugares - e da Europa, onde a geração de Mário Soares nos deixou.

E procuro dar continuidade àquela esperança do meu pai. Como quem procura uma fotografia feliz do futuro.

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