Índia no epicentro das grandes ideias

As medidas para modernizar as comunicações na Índia são geniais e merecem reflexão. Em 1995, havia cerca de 5,3 milhões de linhas de rede fixa, valor irrisório para a população de 900 milhões, pois o socialismo reinante considerava o telefone um luxo! Em 1995, liberalizaram-se as comunicações, até então nas mãos de duas empresas do Estado, atrasadas e inoperantes. Em 1999, abriu-se a telefonia móvel à participação privada, com generosidade na concessão de licenças: quatro por cada região metropolitana - Deli, Mumbai, Calcutá e Chennai - e quatro por cada um dos 18 distritos em que a Índia, não metropolitana, foi dividida. Os concorrentes tinham de satisfazer certos requisitos financeiros, pelo que o processo não só foi bom para o Estado arrecadar receitas mas também para dar largas às capacidades dos operadores.

Isso trouxe sangue novo, ideias de rutura e grande dinamismo. Se antes se pensava que a população é um fardo para o progresso do país, ela passa a ser um fator de rentabilização dos investimentos, com mais utilizadores; ela é o dividendo demográfico. Para tal é necessário que os produtos/serviços sejam acessíveis, por uma baixa de preços conseguida com inovações. Em cada baixa, uma nova camada social, que antes não tinha meios, tem agora acesso.

Assim se chegou ao ano 2015 com mais de 950 milhões de linhas de rede móvel instaladas, 850 milhões das quais ativas. E para surpresa das mentes tradicionais, todos ganhavam: os operadores, embora ganhando menos por cliente, mas ao serem aos milhões, as receitas cumpriam-se bem; ganhavam os clientes, pois estar conectado trazia mais trabalho e rendimento; sem perdas de tempo para passar mensagens e mudar os planos; e muita economia paralela, pois o telefone permitia adquirir serviços e fazer melhores vendas sem dispêndio de tempo.

Começou a penetrar a internet e a generalizar-se com os smartphones. Acesso pela rede fixa telefónica e, maior ainda, pela rede móvel, e agora wi-fi. Para isso há que instalar um router para receber/enviar o espetro de frequências de/para a torre de difusão.

A genialidade da RJio foi de oferecer com a subscrição um router. O sinal G4 da Jio cobria 80% do país, aquando do seu lançamento cobrirá até 2018 todo o território. Nesta operação, de dezembro de 2016 até hoje, a RJio adquiriu mais de 125 milhões de clientes, que nesse tempo receberam gratuitamente a voz e os dados.

Agora vem o novo salto: todos podem aceder à comunicação em G4, mais difundida do que a G2, pela Reliance, faltando o smartphone para G4. A Reliance Jio oferece-o, com certas app (aplicações) úteis já instaladas: é o smartphone reduzido (smartphone r), para a voz e os dados sem limite, ao custo de 153 rupias (2,35euro) por mês. Recebe-se o smartphone r da RJio com uma caução de 1,500 rupias (23euro), que será devolvida no final do terceiro ano, ao devolver o smartphone r. Nesses 3 anos ele fica bloqueado, só ao serviço da RJio.

A Reliance vai disponibilizar 5 milhões desses smartphone r por semana, a partir de setembro; ou 260 milhões no final do primeiro ano. Há mais de 500 milhões que utilizam aparelhos em G2 e que talvez não se mudassem por causa do custo do smartphone. E agora é sem custos! Assim, a base da pirâmide pode entrar na economia digital, com aceso à internet rápida e em banda larga, em contacto com o mundo, a custos ínfimos.

Há uns anos a Fortune constatava, com admiração, que a Reliance estava a lançar fibra ótica pela Índia, à razão (se não me falha a memória) de 100 km por dia. Talvez Ambani já tivesse vislumbrado que na banda larga estava o futuro, sem saber ainda como... A Reliance lançou 277 mil quilómetros de fibra que permite hoje comunicação rápida, em banda larga, por toda a Índia. Foi uma grande visão para tornar a Índia digital, inclusiva, sem deixar ninguém, nem nenhum recanto do país, de fora.

Professor da AESE Business School e Dirigente da AAPI - Associação de Amizade Portugal-Índia

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